Sem Título #09, imagem da série "Uma e outra erupção", de Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo.

Para visitar paisagens interiores

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Sem Título #09, imagem da série "Uma e outra erupção", de Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo.
Sem Título #09, imagem da série "Uma e outra erupção", de Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo.

A série “Uma e outra erupção”, da artista Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo em 2012, formou a exposição Casualmente Fotografia, sua e do artista Levan Tsulukidze, na Paradigmas Arte Contemporâneo, em Barcelona – galeria que representa seu trabalho na Espanha, ao lado da Galeria Virgilio no Brasil.

Montada na parede em formato pequeno, com imagens distantes e outras próximas umas das outras, propõe uma aproximação lenta. Nas cenas, paisagens, pessoas e bichos circulam de forma esparsa, como numa densidade de sonho, sem saber ao certo onde estão.

“Da mesma forma, no percurso devagar que é sugerido, a ideia não é que a pessoa descubra os mistérios das fotografias ali presentes – mas sim que tenha acesso às suas paisagens interiores, quer dizer, ao seu próprio acervo de sensações sobre o silêncio, o estranhamento, e assim por diante. Na ordem que lhe for mais propícia”, explica a artista, que nasceu (1986) e vive em São Paulo e estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP e na Universidade Paris-Sorbonne, onde desenvolveu uma investigação sobre imagem e memória, sob a orientação de Michel Puech.

Como introduz Ilana, a proposta de “Uma e outra erupção” é convidar a uma aproximação lenta, silenciosa, que tenha a chance de abrir no espectador um espaço para visitar suas “paisagens interiores” – termo presente na obra de Caio Fernando Abreu.

No texto “A memória como coexistência virtual”, Henri Bergson reitera sua tese de que – em tradução livre – “jamais o passado se constituiria se ele não se constituísse primeiro, ao mesmo tempo que ele é presente. (…), se ele não coexistisse com o presente do qual ele é o passado”.

A partir desta ideia, a artista comenta: “Acredito que a fotografia tem um papel na lucidez disto. Quando realizei essas fotografias, tinha em mente as pessoas que não conhecia e iam vê-las: de uma maneira, gerei esse passado coletivo simultaneamente a estar vivendo o tal presente que tanto se diz abrigado no fotograma”.

Ilana, que participa pela primeira vez do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, acredita que a definição de contemporaneidade está justamente no cerne dessa fotografia contemporânea.

“Isso porque ela indica poder ser tudo que o artista considerar como tal para o seu uso e não só diferentes suportes de movimento, volume e etc., como também o próprio conteúdo gerado pela fotografia ‘moderna’ ou ‘clássica’, que pode ser absorvido e vivificado mais uma vez. São camadas que se misturam, somam, não esmagam uma à outra”.

Para ela, o artista pode fazer um trabalho que esteja em sintonia ou semelhança com algo feito cinquenta, cem ou mesmo quinhentos anos atrás. “E ele pode sentir ter uma sensibilidade, uma índole similar, à de certos humanos que viveram em diferentes épocas; e sentir-se conectado à história da arte de forma mais transversal do que linear”, considera.

Iniciativa importante – Para a artista, iniciativas como a do Prêmio Diário dão ao artista um fôlego maior para dar segmento a suas pesquisas. “Algumas vezes os trabalhos ganham arremate final e corpo de reflexão no momento de serem inscritos para o edital, é uma hora em que o artista pára organizar aquele material e torná-lo um envelope, um dossiê. Só isso, já acrescenta bastante à noção sobre o próprio percurso, um instrumento que ajuda a caminhar”.

A fotógrafa acredita que, sendo contemplado, o material tem a chance de ser visto no suporte idealizado por quem o criou – seja em impresso e com molduras, em uma sala de vídeo, etc.

“O que, no caso da fotografia é bem diferente de vê-lo em uma tela de computador ou em uma revista, livro, etc. Cada lugar é um, e esse lugar da Casa das Onze Janelas, ao que parece, é um dos bons. Chegar à outra cidade e espectadores, imprevistos também, pois como eu disse lá no comecinho, se a ideia é propor o acesso a paisagens interiores, as paisagens de cada universo sempre serão diferentes, ainda que a foto vista seja supostamente igual”.

Fotografia paraense – Ilana já conhece o cenário da fotografia paraense e cita o trabalho de Mariano Klautau Filho, curador do Prêmio. “Acho que quando ele conversa com Edward Hopper, William Turner, por exemplo, ilustra muito dessa impressão que mencionei sobre a fotografia contemporânea. Não sinto que Hopper e Turner ficam, em seus trabalhos, à frente ou atrás do tempo, mas todos em um tempo sincrônico, trazidos à tona para uma densidade de semelhantes”. E também elogia a série “Efêmera Paisagem”, de Alberto Bitar, que viu exposta em São Paulo, em uma sala do Centro Universitário Maria Antônia. Mas em outro exemplo de contemporaneidade ela fala de um artista plástico.

“O Osmar Pinheiro, artista muito importante que fundou a Galeria Virgilio, com a qual trabalho, estritamente não foi um fotógrafo, mas nas suas pinturas se vê a fotografia de maneira clara, forte e pulsante. Eu me identifico muito, e é uma obra que, numa visão contemporânea, também poderia estar presente em uma exposição fotográfica com grande ganho para a linguagem”, diz.

Ilana lembra ainda as projeções sobre árvores, de Roberta Carvalho, que ela presenciou no último Paraty em Foco. “Fiquei feliz de conhecer um trabalho que caminha na conjunção entre fotografia e plantas, algo que me interessa bastante”, finaliza.

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