O deslocamento do olhar e da vivência: Entrevista com Ana Lira

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Em 2020, o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia trouxe alguns dos nomes que já passaram pelo projeto para ajudar a compor esta 11ª edição a muitas mãos. Ana Lira, fotógrafa, pesquisadora e especialista em Teoria e Crítica da Cultura, é uma delas.

No ano de 2018, Ana foi selecionada para a exposição, ministrou oficina e conversou com o público de Belém sobre os seus trabalhos que trazem muito do fazer e do pensar coletivo.

Este ano, ela retorna como tutora da Residência Artística Recife que acolherá, na capital pernambucana, um artista paraense ou residente no estado.

As inscrições para esta 11ª edição, que tem ainda outros dois prêmios de residência artística, foram estendidas até 30 de abril e são realizadas somente pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

Ana Lira. Foto: Maria Chaves

Confira a entrevista com Ana Lira:

P: Qual a importância da residência para a formação do artista? Na residência, há o deslocamento, a mudança de cenário, de pessoas. O que isso pode gerar de ativação no pensar e no fazer artístico?

R: Vou responder as duas em uma, porque a segunda pergunta é uma resposta para a primeira. Eu creio que é ter a oportunidade de se deslocar e observar as coisas a partir de outras vias. Encontrar pessoas e contextos que, por viverem outras dinâmicas, temporalidades, circunstâncias e construções ajudam a olhar para questões da nossa vida que nos permitem afinar o olhar para etapas interessantes que ainda não desenvolvemos.

E, ao ver a nossa vida por outras guias, podemos olhar para o que estamos elaborando de maneira igualmente distinta. Este deslocamento faz com que possamos abrir outros processos criativos, ampliar vivências, desenvolver trechos de projetos que eram valorizados, encontrar outras formas de responder às questões que cruzam nossos caminhos.

Eu não penso na conexão residência – trabalho artístico em primeira instância, porque acho que esse deslocamento não muda o nosso trabalho. Ele muda a nossa vida e é essa transformação na vida que vai colocar a criação em outro lugar, porque agregamos outros referenciais para dialogar com o que tínhamos até aquele momento.

Então, mais do que ficar imerso completamente em um trabalho, na residência, a gente deve estimular que qualquer residente viva a cidade e as experiências que ela oferece – e sinta seus processos dentro disso.

P: Seus processos artísticos pessoais são construídos muito com o fazer coletivo e em parceria com comunidades. Ou seja, ter o outro junto de si já é algo que faz parte da sua prática. Assim, como você recebeu o convite do Diário Contemporâneo para ser a tutora de uma residência do projeto?

R: Então, eu acho que a gente precisa ampliar um pouco o conceito de comunidade. Eu estava falando sobre isso em outra residência que eu fiz, ano passado. Todo mundo vive em comunidade, porque a gente articula nem que seja um mínimo de experiências em comum com algum grupo de pessoas.

A questão é que algumas comunidades possuem acesso a diversas coisas que potencializam a vida e outras comunidades são sacrificadas pelos governos nesses acessos – e são forçadas pelas circunstâncias a se reinventar. Não gosto muito de pensar nessa ideia de “comunidade como o outro”, como algo externo e diferente da nossa vida como sociedade. Acho que essa vivência de quarentena com o coronavírus tem sido precisa em nos mostrar isso…

A questão é que as sensibilidades cotidianas me interessam. Eu fui criada em um bairro distante e fronteiriço; que por décadas dividiu a rotina entre ser o bairro da universidade e, ao mesmo tempo, manter grupos de moradores cuja rotina migrava entre o ser ribeirinho e o ser rural. Essas convivências removem muitas noções estagnadas de hierarquia e nos colocam em outro lugar.

Hoje, estamos vivendo uma super gentrificação neste bairro, mas foi a vida nele que me ajudou a perceber, em meus mais diversos deslocamentos, a importância de não cortar o elo entre a materialização criativa e as bases contextuais que a geraram. Percebi a importância de não levar a materialização para o lugar de isolamento, a ponto de perder totalmente a referência de onde partiu, porque isso não faz sentido para as cosmologias da qual eu faço parte.

Acho que por trazer essas referências e por ter com o prêmio uma relação de absoluta sinceridade, no sentido de frequentemente dar retornos sobre como as dinâmicas dele afetam a produção da fotografia/artes visuais em nosso entorno, que eu fui convidada. Essa conversa existiu pela primeira vez na edição de 2019, mas ano passado foi impossível para mim orientar qualquer pessoa, porque eu estava em um ciclo intenso de viagens. Este ano, nós acordamos de receber a residência em Recife e espero que, apesar de qualquer contexto dessa pandemia, seja uma experiência boa para quem vier.

Terrane. Foto: Ana Lira

P: O que aqueles que desejam se inscrever na Residência Artística Recife podem esperar de atividades e ações propostas.

R: Recife é uma cidade bem intensa em termos de criação, mas pouco institucional nesse sentido. Um residente cuja prática esteja focada em museus, galerias e espaços mais institucionais pode ter poucas opções na cidade. Há opções, mas não é o nosso forte…

Por outro lado, é  um lugar de muita criação livre, vivências, circulação e experiências cotidianas. As trocas com outros artistas e com a própria cidade já oferecem a possibilidade de repensar as experiências de vida. Então, o ideal é que quem aplicar para Recife saiba que o aprendizado vai estar na observação cotidiana e nas potências de intercâmbio com outras cidades da região metropolitana, agreste e sertão.

Nesse sentido, há uma certa conexão com Belém, cuja experiência sensorial transforma qualquer vida e processo artístico. Então, precisa vir aberto para esses entrelaçamentos. Aberto para conviver, sentir cheiros, ouvir sonoridades, ficar preso no trânsito, sair de casa sem hora pra voltar, emendando experiências diferentes em um único dia, mesmo com muita chuva. Ver uma cidade que fecha cedo e acorda muito cedo – e que se pode construir experiências de rever esse lugar. Pensar na praia e no tubarão ao mesmo tempo, encontrar alguém no meio do caminho e se apaixonar; enfim, todos esses deslocamentos possíveis. E sentir o que isso transforma nos processos de criação…

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve até o dia 30 de abril. Informações: (91) 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

A fotografia e o contemporâneo: Entrevista com Rosely Nakagawa

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Em um mundo de constantes transformações, que imagens a fotografia escolhe? Por que? De que maneira? O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia acompanha essas inquietações visuais há mais de uma década.

Nesta 11º edição, ele decidiu propor experiências do pensar e do fazer artístico mais compartilhadas. São três prêmios de residência artística, uma delas coletiva, inclusive. Compartilhada também foi a curadoria da mostra principal que traz, neste ano, Rosely Nakagawa como curadora convidada.

O prazo para as inscrições foi estendido até 30 de abril e elas são realizadas pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

Rosely Nakagawa. Foto: Miguel Gonçalves Mendes

Rosely Nakagawa é curadora e editora de artes visuais. Formada em Arquitetura pela FAU-USP, fundou a Galeria Fotóptica em 1979, coordenou a Casa da Fotografia FUJI e foi curadora das galerias FNAC de 2003 a 2009. Atua como curadora independente, tendo realizado mostras de arte em instituições nacionais e internacionais. Em Belém, foi curadora do Projeto Fotografia Contemporânea Paraense – Panorama 80/90 no Museu Casa das Onze Janelas.

Confira a entrevista com ela:

P: O tema desta 11ª edição parte da literatura. Para a fotografia, qual a importância deste diálogo com as outras linguagens?

R: Eu faria uma inversão na sua questão, falando da importância da fotografia para as outras linguagens. E ainda reforçaria que a palavra “fotografia” deve ser revista, hoje ela é mais “imagem”. Ela é tecnologia de grafia de pontos sensíveis à energia, ondas eletromagnéticas, pontos algorítmicos que produzem imagens.

Hoje ela está presente na criação desde o princípio. O processo de criação se dá a partir de imagens, antes de qualquer anotação, leitura ou pensamento.

P: Qual é o papel do curador na arte contemporânea? 

R: O curador felizmente tem mudado de papel rapidamente, ocupando um lugar mais adequado, menos protagonista do que nos últimos anos. Ele deve voltar a ocupar o seu lugar, o de estar atualizado nos processos de criação dos artistas, acompanhando-os em toda sua dimensão, e trabalhando na fatia que lhe cabe: a de estimular, difundir e provocar a reflexão sobre os processos de criação diante da expectativa do artista e do público.

P: O curador de arte tem uma atuação que busca provocar reflexões, mas também precisa lidar com questões de ordem prática, como montagem, escolha de suportes e o relacionamento com as instituições. Como isso se dá?

R: A discussão destes elementos são parte do processo de criação e é obrigação do curador saber onde eles são necessários e quais os aparatos mais adequados. A relação Institucional nem sempre.  Cabe ao curador criar um espaço para a arte e para o público junto as Instituições, abrindo novos olhares, pontos para discussão, interação e formação.

Mas longe da administração destes espaços. Dentro deles, se houver um curador, ele deveria atuar ao lado de um comitê mais amplo e imparcial.

P: Você vem acompanhando a fotografia paraense há anos. Que transformações ocorreram com ela?

R: A fotografia assim como outros processos criativos é orgânica, permeável e mutante. Desde 1980, no encontro da Semana de Fotografia da FUNARTE, quando estive em Belém pela primeira vez, até o ano 2000 quando acompanhei mais de perto uma gama maior de profissionais para o Panorama da Fotografia Contemporânea, a fotografia sofreu uma mudança radical do ponto de vista de tecnologia, com a introdução da plataforma digital. A técnica ainda em 1990 era um fator estrutural para a construção da fotografia e responsável pelo seu resultado. O equipamento e os acessórios eram uma escolha que determinava a aproximação com o objeto do trabalho. A cor, ou o preto e branco, o grão, a mudança sutil de luz do céu da Amazônia, a velocidade da ação diante do fotógrafo. A resolução ou a falta dela no registro das paisagens.

De 2000 para 2020, as mudanças se notam mais críticas no âmbito sociocultural, ambiental, ético, humano. Várias questões presentes nas fotografias nos anos 1980 e 1990, se exacerbaram, e se mostram presentes como imagens contemporâneas; a marginalidade, o gênero, os desastres naturais, a ética. A diferença de abordagem não se limita mais ao equipamento, mas à elaboração crítica do imaginário prévio à captação. A imagem produzida pela câmera exige uma sofisticação de pensamento e conceituação para ser uma imagem do universo da arte contemporânea.

P: E nestes anos de atuação do Diário Contemporâneo, no que você acredita que ele contribuiu para estas transformações?

R: O Diário Contemporâneo criou e ocupa um espaço para acompanhar e documentar a produção neste período de mudanças. Mais que um edital ou prêmio, ele estimula desde o princípio, a reflexão, a pertinência, o processo, os itens mais importantes para o fazer artístico, que incluem a leitura, o roteiro, a fundamentação de um conceito e percepção muito próximos da literatura. O que justifica mais uma vez esta ligação entre imagem e literatura.

No início, tudo era imagem e verbo, sem separação, um só ideograma.

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve até o dia 30 de abril. Informações: (91) 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

Comunicado – 11ª edição

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