Experimentação dialética em Spinario

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Quadros do vídeo Spinario, de Lucas Gouvea, Prêmio Diário do Pará de 2012.

Lucas Gouvêa, ganhador do Prêmio Diário do Pará em 2012, é formado em design pelo CEFET, estuda Artes Visuais na UFPA e já teve alguns trabalhos expostos em galerias da cidade de Belém (CCBEU, SESC, Salão da Vida), porém, é fora de todas essas instituições que constrói o trabalho artístico de qual se orgulha em ser autor.

Junto com os outros integrantes do qUALQUER qUOLETIVO vem, desde 2010, executando trabalhos de performance e intervenção em espaços públicos de Belém de forma rizomática, horizontal e descentralizada e também engendrando-se dentro dessas instituições (universidade, galerias) com intuito de desestigmatizá-las enquanto espaço religioso da arte e de pura contemplação, transformando-as em um espaço livre, onde qualquer um pode fazer arte.

“É a primeira vez que me inscrevo no Prêmio Diário e é a primeira vez que ganho um prêmio desta importância”, diz ele, contemplado à premiação dedicada ás produções paraenses.

“Spinario” traz o escuro e a luz. A emoção e a razão. A dor e a felicidade. A fotografia e o vídeo. De acordo com o artista, Spinario é um vídeo-fotografia referencial que se apropria de uma escultura helenística do século I A.C.. Um menino remove espinhos do seu pé, para a construção de um processo audiovisual de depuração da imagem da luz.

“Minha obra cursa uma dialética precisa. É o Analógico e Tecnológico. O fotógrafo e o performer. Da sola dos pés aos mil olhos de Osíris”, diz.

Em sua opinião, nada define a fotografia contemporânea. Por isso resolveu se inscrever no salão de fotografia mesmo não sendo um fotógrafo. “A fotografia hoje em dia define o mais plural significado da reprodutibilidade, se encontra em todos os lugares, nos celulares, nos outdoors, nos documentos, na televisão, nos rituais humanos. E a contemporaneidade está fatalmente ligada ao tempo, todo artista é contemporâneo, ao seu tempo, a sua existência. Talvez o primeiro fotógrafo contemporâneo, tenha sido Platão quando escreveu sua alegoria da caverna”.

Além da universidade da qual faz parte, e de sua produção marginal, se tratando de fotografia e do ensino da mesma, ele diz que já conhece e se relaciona com a cena tradicional da fotografia paraense há alguns anos.

“Editei o vídeo ‘Planeta Pinhole’ em parceria com artistas parceiros e a Fotoativa, para ser lançado no Pinhole Day, onde se encontra um panorama mundial da produção artesanal de fotografia”, exemplifica o artista que no ano passado também editou o catálogo de acervo da galeria KamaraKó, única no norte especializada em fotografia.

“Dentre outros trabalhos, sempre de forma marginal e não fotográfica, sou um apaixonado por fotografia, porém tento enxergá-la muito além do processo químico comum do qual estamos acostumados a lidar, e me vejo dentro dessa cena, como um dos agentes desestabilizadores dessa hegemonia artística tradicional e historicista”, afirma. Para Lucas, que tem trabalhado há anos, rompendo totalmente com essa ideia de seleção e curadoria, o Prêmio Diário veio em boa hora.

“Financeiramente e teoricamente. Dentro do meu processo artístico acadêmico não há momento mais importante do que essa oportunidade pra repensar meu fazer artístico, e minha consciência critica. Boa parte de todo esse processo fará parte do trabalho de conclusão de curso de artes visuais do qual eu me formo esse ano”, encerra.

Para visitar paisagens interiores

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Sem Título #09, imagem da série "Uma e outra erupção", de Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo.
Sem Título #09, imagem da série "Uma e outra erupção", de Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo.

A série “Uma e outra erupção”, da artista Ilana Lichtenstein, Prêmio Diário Contemporâneo em 2012, formou a exposição Casualmente Fotografia, sua e do artista Levan Tsulukidze, na Paradigmas Arte Contemporâneo, em Barcelona – galeria que representa seu trabalho na Espanha, ao lado da Galeria Virgilio no Brasil.

Montada na parede em formato pequeno, com imagens distantes e outras próximas umas das outras, propõe uma aproximação lenta. Nas cenas, paisagens, pessoas e bichos circulam de forma esparsa, como numa densidade de sonho, sem saber ao certo onde estão.

“Da mesma forma, no percurso devagar que é sugerido, a ideia não é que a pessoa descubra os mistérios das fotografias ali presentes – mas sim que tenha acesso às suas paisagens interiores, quer dizer, ao seu próprio acervo de sensações sobre o silêncio, o estranhamento, e assim por diante. Na ordem que lhe for mais propícia”, explica a artista, que nasceu (1986) e vive em São Paulo e estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP e na Universidade Paris-Sorbonne, onde desenvolveu uma investigação sobre imagem e memória, sob a orientação de Michel Puech.

Como introduz Ilana, a proposta de “Uma e outra erupção” é convidar a uma aproximação lenta, silenciosa, que tenha a chance de abrir no espectador um espaço para visitar suas “paisagens interiores” – termo presente na obra de Caio Fernando Abreu.

No texto “A memória como coexistência virtual”, Henri Bergson reitera sua tese de que – em tradução livre – “jamais o passado se constituiria se ele não se constituísse primeiro, ao mesmo tempo que ele é presente. (…), se ele não coexistisse com o presente do qual ele é o passado”.

A partir desta ideia, a artista comenta: “Acredito que a fotografia tem um papel na lucidez disto. Quando realizei essas fotografias, tinha em mente as pessoas que não conhecia e iam vê-las: de uma maneira, gerei esse passado coletivo simultaneamente a estar vivendo o tal presente que tanto se diz abrigado no fotograma”.

Ilana, que participa pela primeira vez do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, acredita que a definição de contemporaneidade está justamente no cerne dessa fotografia contemporânea.

“Isso porque ela indica poder ser tudo que o artista considerar como tal para o seu uso e não só diferentes suportes de movimento, volume e etc., como também o próprio conteúdo gerado pela fotografia ‘moderna’ ou ‘clássica’, que pode ser absorvido e vivificado mais uma vez. São camadas que se misturam, somam, não esmagam uma à outra”.

Para ela, o artista pode fazer um trabalho que esteja em sintonia ou semelhança com algo feito cinquenta, cem ou mesmo quinhentos anos atrás. “E ele pode sentir ter uma sensibilidade, uma índole similar, à de certos humanos que viveram em diferentes épocas; e sentir-se conectado à história da arte de forma mais transversal do que linear”, considera.

Iniciativa importante – Para a artista, iniciativas como a do Prêmio Diário dão ao artista um fôlego maior para dar segmento a suas pesquisas. “Algumas vezes os trabalhos ganham arremate final e corpo de reflexão no momento de serem inscritos para o edital, é uma hora em que o artista pára organizar aquele material e torná-lo um envelope, um dossiê. Só isso, já acrescenta bastante à noção sobre o próprio percurso, um instrumento que ajuda a caminhar”.

A fotógrafa acredita que, sendo contemplado, o material tem a chance de ser visto no suporte idealizado por quem o criou – seja em impresso e com molduras, em uma sala de vídeo, etc.

“O que, no caso da fotografia é bem diferente de vê-lo em uma tela de computador ou em uma revista, livro, etc. Cada lugar é um, e esse lugar da Casa das Onze Janelas, ao que parece, é um dos bons. Chegar à outra cidade e espectadores, imprevistos também, pois como eu disse lá no comecinho, se a ideia é propor o acesso a paisagens interiores, as paisagens de cada universo sempre serão diferentes, ainda que a foto vista seja supostamente igual”.

Fotografia paraense – Ilana já conhece o cenário da fotografia paraense e cita o trabalho de Mariano Klautau Filho, curador do Prêmio. “Acho que quando ele conversa com Edward Hopper, William Turner, por exemplo, ilustra muito dessa impressão que mencionei sobre a fotografia contemporânea. Não sinto que Hopper e Turner ficam, em seus trabalhos, à frente ou atrás do tempo, mas todos em um tempo sincrônico, trazidos à tona para uma densidade de semelhantes”. E também elogia a série “Efêmera Paisagem”, de Alberto Bitar, que viu exposta em São Paulo, em uma sala do Centro Universitário Maria Antônia. Mas em outro exemplo de contemporaneidade ela fala de um artista plástico.

“O Osmar Pinheiro, artista muito importante que fundou a Galeria Virgilio, com a qual trabalho, estritamente não foi um fotógrafo, mas nas suas pinturas se vê a fotografia de maneira clara, forte e pulsante. Eu me identifico muito, e é uma obra que, numa visão contemporânea, também poderia estar presente em uma exposição fotográfica com grande ganho para a linguagem”, diz.

Ilana lembra ainda as projeções sobre árvores, de Roberta Carvalho, que ela presenciou no último Paraty em Foco. “Fiquei feliz de conhecer um trabalho que caminha na conjunção entre fotografia e plantas, algo que me interessa bastante”, finaliza.

Tempo implacável, memória viva

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Imagem do projeto Morar, do Coletivo Garapa, Prêmio Memórias da Imagem.

O Coletivo Garapa é um espaço de criação que tem como objetivo pensar e produzir narrativas audiovisuais, integrando diversos formatos e linguagens. Atua em parceria com clientes comerciais além de desenvolver um trabalho de pesquisa autoral, sempre explorando as potencialidades de cada projeto, tanto na construção da narrativa quanto nos modelos de distribuição.

Formado por Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes, o grupo participa do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia com a obra Morar (Prêmio Memórias da Imagem), projeto que busca criar um arco de memória entre a existência e a desaparição dos edifícios São Vito e Mercúrio, emblemáticas construções demolidas recentemente na cidade de São Paulo. Trata-se de um ensaio visual sobre os prédios, objeto de pesquisa desenvolvido pelo Coletivo desde meados de 2008.

Desde então, acompanhamos o desenrolar das suas histórias, da desocupação à demolição. Para o Prêmio Diário, trouxemos uma obra que, de certa forma, resume a dinâmica da metrópole, que, na ânsia do progresso, se reescreve a cada instante. Em oito quadros, vamos da presença ao desaparecimento dos edifícios, percorrendo dois anos de uma história que se apaga apenas da paisagem, mas nunca da memória”, explica Paulo Fehlauer, que está em Belém para a abertura da mostra Memórias da Imagem, que acontecerá na Casa das Onze Janelas, no dia 28 de março.

De acordo com ele, tais memórias ora se encaixam em harmonia, ora se chocam produzindo uma infinitude de interpretações. “O políptico que apresentamos aqui, busca sintetizar um universo bem maior de imagens. Acreditamos que o desaparecimento do prédio seja a memória viva da cidade que se transforma e passa por cima de histórias privadas em nome da transformação e do progresso.”

Na década de 1960, a expectativa de vida de um paulistano era, ao nascer, de aproximadamente 65 anos. Nem o São Vito, nem o Mercúrio corresponderam a essa estatística. “Na ansiedade do progresso, a metrópole busca se reconstruir o tempo todo, transformando a cidade em um imenso palimpsesto, ‘memória viva de um passado já morto’. Apagados os edifícios, a paisagem, testemunha das tensões humanas, se ressignifica. O tempo da metrópole é implacável; resta a memória”, explica.

Para Paulo Fehlauer, a característica mais marcante da fotografia contemporânea passa um pouco pela própria dificuldade de nominá-la ou restringi-la a campos específicos. Por isso ele diz que nos projetos do coletivo, busca-se sempre trabalhar o diálogo da fotografia com outras linguagens, como o vídeo e a literatura. “Estamos interessados nesse hibridismo que expande o campo fotográfico”, reforça.

Grupo que desenvolve projetos para ambientes distintos – da fotografia estática à interação multiplataforma, do vídeo à instalação site specific; produz e dirige filmes documentários e publicitários; desenvolve plataformas multimídia, ensaios fotográficos e exposições, o Coletivo Garapa já possui uma relação próxima com o Pará, onde já teve oportunidade de realizar atividades como a oficina Experiência Multimídia, em 2010, e de participar do projeto Curta em Circuito, em 2011.

“Antes disso, já conhecíamos e admirávamos alguns dos grandes nomes da fotografia paraense, como Luiz Braga, Alexandre Sequeira e Miguel Chikaoka, mas esse universo se expandiu muito a partir do contato direto com os fotógrafos e artistas locais. Hoje, mais do que contatos, temos muitos amigos no Pará”.

De acordo com ele, prêmios como o Diário Contemporâneo são importantes na carreira de qualquer criador por representar o reconhecimento de pesquisas estéticas e temáticas de cada participante. “Além disso, são ótimas oportunidades para se acompanhar a produção do país”, finaliza.

Inscrições abertas para Retratos Híbridos

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Imagem de Valério Silveira, da série Retratos Híbridos.

Em maio de 2009, durante uma viagem, o fotógrafo e arte-educador Valério Silveira teve a ideia de “juntar retratos com imagens, desenhos, texturas ou padrões variados”. A ideia originou a série Retratos Híbridos, transformada em uma oficina, que acontecerá entre os dias 19 e 23 de março, sempre das 15h às 18h, no Instituto de Artes do Pará, na programação do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.

Retratos Híbridos é uma série de fotomontagens que os participantes aprenderão a desenvolver com processos de dupla exposição feitos a partir da câmera fotográfica ou com pós-produção em programas gráficos. O resultado é o fruto da combinação de duas ou três imagens, partindo de um retrato que será unido a outras imagens significativas para os alunos.

Valério Silveira é mestre em Educação no ICED/UFPA, professor da rede pública e particular de ensino e pesquisa a fotografia de infância em Belém na primeira metade do século XX. Ele explica qual será a metodologia da oficina para chegar às fotomontagens propostas pela atividade: “Inicialmente uma discussão sobre a importância e a precisão do retrato – sem respostas prontas. Depois algumas colocações sobre hibridez e um leve caminho sobre o meu percurso de construção. Os alunos serão divididos em duplas, conversarão sobre si mesmos até decifrar o mistério de como se dará a imagem híbrida de seu colega e partirão para a prática do retrato primeiramente. Depois deverão produzir algumas imagens que possam hibridizar com o retrato”. Após estas etapas, será realizada a prática de edição com fotomontagens e tratamentos em computador.

Sobre o público-alvo, Valério afirma que podem participar da oficina de adolescentes a idosos e que não é necessário ter habilidades com câmeras ou softwares de edição de imagem. O único pré-requisito é que o aluno possua notebook, pois o equipamento será utilizado na etapa final da atividade. A câmera fotográfica é opcional.

As inscrições já estão abertas, são gratuitas e seguem até o dia 14 de março. Os interessados devem procurar o escritório do Prêmio. Também é possível baixar o formulário de inscrição aqui no site, na seção Oficinas.

Participe!

Oficina Retratos Híbridos, com Valério Silveira, de 19 a 23 de março, das 15h às 18h, no IAP. Inscrições até 14 de março, no escritório do Prêmio (Rua Gaspar Viana, 773). A participação é gratuita.

Seleção distante dos caminhos óbvios

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Miguel Chikaoka, Heloisa Espada e Jorge Eiró durante a seleção dos trabalhos no MHEP. Foto: Irene Almeida.

Durante um mês, entre janeiro e fevereiro, foram recebidos dossiês e portfólios de artistas de todas as regiões do Brasil para o III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, com o tema Memórias da Imagem. Na noite de 29 de fevereiro, depois de três dias de trabalho da comissão julgadora, foram selecionados os 23 participantes da mostra de 2012.

O curador Mariano Klautau Filho destaca o interesse nacional pelo Prêmio: “Mantivemos a média de inscritos de todas as regiões do país, com preponderância de trabalhos do nordeste, sudeste e sul, porém recebemos também trabalhos do centro-oeste e norte. Além disso, há a participação sempre grande da produção paraense. Este aspecto quantitativo é interessante para o crescimento do projeto.”

Segundo ele, há um crescimento da procura por parte de novos artistas e também de artistas que vêm ganhando visibilidade nacional e no exterior, que têm buscado o Prêmio para mostrar seus trabalhos. “O Prêmio está participando do processo de visibilidade do artista nacional contemporâneo e jovens artistas têm se revelado pelo projeto”. Tem aumentado, ainda, a procura de artistas que já têm uma trajetória consistente. “A procura dessas diferentes gerações vem crescendo, o que dá credibilidade e frescor ao Prêmio.”

Trabalho criterioso

Comissão priorizou trabalhos que fugissem do olhar óbvio sobre o tema. Foto: Irene Almeida.

Quanto à qualidade, de acordo com Mariano, o nível das obras enviadas este ano foi muito bom. “A comissão fechou inicialmente uma pré-seleção que ultrapassava os 40 trabalhos. A seleção final privilegiou, além da qualidade, a forma como o tema foi abordado pelos artistas. O trabalho da seleção foi ver como os artistas conversam entre si numa abordagem mais ampla sobre o tema e também eliminar o conservadorismo quanto à relação entre imagem e memória – o que era proposto pelo tema deste ano”.

A comissão julgadora, que se reuniu de 27 a 29 de fevereiro no Museu Histórico do Estado do Pará – MHEP para avaliar os trabalhos inscritos, foi composta por Miguel Chikaoka, fotógrafo, arte-educador e artista convidado do projeto este ano; Jorge Eiró, artista plástico e professor de artes, mestre em Educação; e Heloisa Espada, doutora em História, Teoria e Crítica da Arte, pesquisadora da USP e coordenadora da área de artes visuais do Instituto Moreira Salles.

De acordo com Jorge Eiró, o processo de seleção foi árduo, porém “gratificante e instigante”, diante de um “conjunto de trabalhos excepcional”. Segundo ele, reunindo obras locais e nacionais, o Prêmio “cria um atrito, uma discussão pertinente no âmbito da produção fotográfica contemporânea”.

Sobre a comissão, ele pontua que é natural que cada uma estabeleça um critério, mas destaca que neste grupo houve uma grande sintonia e que ficou satisfeito com o resultado atingido a partir de uma perspectiva que privilegiou as obras que “escapassem de um olhar óbvio sobre a relação entre imagem e memória, algo pertinente no mundo contemporâneo, lotado de imagens”. O olhar da comissão priorizou noções “apagadas” de memória, algo para Eiró “mais instigante que a memória documental”. Ele conclui: “Será mais uma bela edição do Prêmio, que já se consolidou”.

Os vencedores dos três prêmios de R$10.000,00, cada, foram o Coletivo Garapa (SP), com o Prêmio Memórias da Imagem, Ilana Goldbaum Lichtenstein (SP), com o Prêmio Diário Contemporâneo, e Lucas Gouvêa Mariano de Souza (PA), Prêmio Diário do Pará.

Mariano Klautau Filho comenta os perfis dos ganhadores: “O Coletivo Garapa já está no circuito brasileiro, faz parte da geração que já está circulando; a Ilana Lichtenstein é uma jovem artista, conheci seu trabalho no evento Paraty em Foco e a obra dela foi muito bem recebida pela comissão; já o Lucas Gouvêa foi uma ótima surpresa em âmbito local, com um trabalho muito poético e preciso.” Entre os demais selecionados, ele destaca, por exemplo, a obra Chipendale, do coletivo paraense Cêsbixo, formado por jovens artistas, que apresentou um trabalho que reúne fotografia e arte contemporânea, flertando com as linguagens do vídeo e do cinema, com um resultado de alta qualidade.

A Mostra III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia acontecerá de 28 de março a 27 de maio no Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. Confira aqui no site a lista completa de artistas selecionados.

Uma cidade entre metafísica, onírica e barroca

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Marcel Gautherot. Palácio do Congresso Nacional, c. 1960. Acervo Instituto Moreira Salles.

A cidade como obra de arte, num registro ambíguo. O fotógrafo francês Marcel Gautherot desenvolveu uma série de imagens sobre Brasília entre o fim dos anos 1950 e o início dos 1960 – da construção aos primeiros anos da Capital Federal – quase sempre comissionado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. As fotografias foram utilizadas como divulgação de um Brasil em franco desenvolvimento, mas para além do caráter propagandístico pelo qual ficaram conhecidas, guardam características artísticas peculiares.

Esta série de imagens é o tema da tese de doutorado em História, Teoria e Crítica da Arte desenvolvida por Heloisa Espada e também será o foco da palestra que a pesquisadora ministrará na próxima terça, dia 28, no Instituto de Artes do Pará, na programação do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.

Na entrevista a seguir, Heloisa Espada – que integra o Centro de Pesquisa em Arte & Fotografia da Escola de Comunicações e Artes da USP, coordena a área de artes visuais do Instituto Moreira Salles e participa da comissão de seleção do Prêmio em 2012 – comenta aspectos de seu trabalho acadêmico e fala de temas que serão tratados na palestra “Sombras e Arte: Brasília ‘onírica’ e ‘barroca’ – a fotografia de Marcel Gautherot”.

Como você vê a pesquisa sobre fotografia atualmente no Brasil?

Conheço pesquisas muito importantes sendo realizadas nas universidades. De modo geral, o campo de investigação é imenso e ainda há muito o que ser feito. As dificuldades são aquelas enfrentadas por pesquisadores de outras áreas das ciências humanas no Brasil: apoio institucional insuficiente e pouco respaldo social. Mas, felizmente, o campo de pesquisa é muito fértil e, a cada geração, a qualidade dos resultados tende a melhorar.

Como você chegou à escolha da série de Marcel Gautherot sobre Brasília para seu objeto de pesquisa?

Desde o mestrado, venho me dedicando ao estudo da arte realizada no Brasil nos anos 1950 e 1960. Interesso-me, sobretudo, por esse momento de transição entre as duas décadas, quando a arquitetura e a arte moderna vivem seu ápice com a construção de Brasília e o surgimento do neoconcretismo, o que é imediatamente seguido por um momento de crise dos ideais modernos, quando a ideia de autonomia do objeto artístico passa a ser questionada. É um momento de incerteza e transição. Por outro lado, interessava-me também estudar o lugar da arquitetura moderna na história da arte no Brasil, bem como a imagem do país jovem e moderno criada com a construção de Brasília. A análise das fotografias de Gautherot foi como uma porta de entrada para cada um desses assuntos.

Em seu trabalho, você afirma que Gautherot deu um sentido atemporal à imagem de Brasília. Que Brasília ele apresenta?

A Brasília sonhada por muitos intelectuais brasileiros no fim dos anos 1950, intelectuais da maior seriedade, como Lucio Costa e Mário Pedrosa que, embora tivessem divergências políticas com Juscelino Kubitschek, acreditavam na importância simbólica da construção de Brasília num país tão dicotômico e cheio de deficiências como o Brasil. Para compreender esse simbolismo, é fundamental considerar que Brasília segue os pressupostos estéticos da arquitetura moderna.

Qual a representatividade das imagens do fotógrafo, tão recorrentes em publicações sobre a cidade, para a construção da memória sobre a Capital Federal? A seu ver, como a fotografia pode construir, formular uma noção de memória?

Gautherot foi muito próximo de Niemeyer. Suas fotos foram extremamente importantes na divulgação nacional e internacional da cidade, no momento em que era preciso provar que Brasília era um projeto plausível. Suas fotos foram amplamente divulgadas em revistas e exposições realizadas no Brasil, Europa e América do Norte. Elas são muito persuasivas e ajudaram a identificar a arquitetura da cidade com a qualidade técnica e estética que se pretendia. Brasília representava a ideia de que o país não era mais um mero exportador de matéria-prima, mas também um produtor de conhecimento, arte e técnica. As fotografias de Gautherot, de modo geral, mostram as obras da cidade como obras de arte.

A segunda parte da pergunta é bastante complexa e abrangente. Desde sua invenção, a fotografia tornou-se uma ferramenta para a construção da memória individual ou social. Isso não significa que a fotografia seja apenas documento. Ela pode ser documento e também invenção.

Na sua palestra, serão abordadas as sombras características das imagens de Gautherot sobre Brasília – aspecto formal comparado às obras do pintor italiano De Chirico. O que expressam estas sombras?

Sombras são sempre elementos negativos, são obscuras e criam zonas de indeterminação. Acredito que as sombras trazem uma certa ambiguidade para as fotos de Gautherot, permitindo que algumas delas sejam vistas para além do viés propagandístico pelo qual são conhecidas. É importante considerar também que muitas dessas fotos não foram publicadas no contexto das revistas e exposições de arquitetura, vindo a público apenas recentemente, em exposições específicas sobre a obra de Gautherot.

Algumas dessas fotos não são apenas “fotografias de arquitetura” – os autorretratos, por exemplo -, elas demonstram que o interesse do fotógrafo pela cidade ia além da produção de um trabalho comissionado bem feito.

Você realiza uma leitura intertextual da série de Gautherot com escritos de intelectuais, críticos e literatos. Que conceitos costuram esta relação? Por que Brasília “onírica” e “barroca”?

O escritor italiano Alberto Moravia e o embaixador Wladimir Murtinho, por exemplo, descrevem Brasília como “surreal”, “metafísica” e “barroca”. Eles usam esses adjetivos de maneira bastante livre e sem rigor conceitual, mas, de modo geral, se referem ao aspecto artificial e monumental de Brasília, como um espaço opressor e autoritário. Ambos comparam Brasília com as paisagens de Giorgio de Chirico. Para Moravia, a estética moderna de Brasília seria apenas uma atualização do poder do Estado manifestado por meio de uma arte suntuosa e monumental, típica do barroco.

Clarice Lispector, por sua vez, descreve Brasília como o cenário de um sonho, uma paisagem artificial. O relato da escritora é bastante ambíguo. Ela sugere críticas para, em seguida, demonstrar espanto e admiração pela cidade. Acho que essa postura ambígua é muito verdadeira no caso de Brasília, sobretudo nos primeiros anos da cidade. A avaliação de Brasília é um assunto complexo e cheio de nuances. As posturas totalmente “a favor” ou “contra” são quase sempre insuficientes e simplificadoras. Acho que a ambiguidade, nesse caso, é mais rica e esclarecedora.

Algumas fotos de Gautherot também denotam essa artificialidade e a impressão de que a paisagem de Brasília é irreal. Acho possível estabelecer conexões entre o discurso ambíguo de suas fotos e o ponto de vista de Clarice Lispector, por exemplo.

SERVIÇO: Palestra “Sombras e Arte: Brasília ‘onírica’ e ‘barroca’ – a fotografia de Marcel Gautherot”, dia 28 de fevereiro (terça), às 19h, no Instituto de Artes do Pará, na programação do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Entrada franca.

O Prêmio segundo o artista: Carlos Dadoorian (SP)

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Obras de Carlos Dadoorian no Prêmio de 2011. Foto: Irene Almeida.

“A fotografia brasileira vem ganhando espaço a cada ano e Belém, berço de uma fotografia contemporânea explosiva e poética, é prova disso. Penso que o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia entrou de vez no calendário para artistas que utilizam a fotografia como expressão e que finalizam seus trabalhos em qualquer suporte, seja num papel fotográfico, de algodão ou mesmo em vídeos e projeções em superfícies diversas.

Fui selecionado nas duas edições do Prêmio, e constatei que o tratamento dado aos artistas e seus respectivos trabalhos é de extremo profissionalismo, desde o edital – claro e enxuto – até a devolução das obras. Isso com certeza é um ponto a ser avaliado. Este Prêmio é importante também, pois estimula os artistas a produzirem ou reverem seus trabalhos com o objetivo de inscrevê-los dentro do prazo estabelecido, gerando uma relação de ganho para todos.

É claro que receber um prêmio faz todo mundo feliz, mas ser selecionado, ter o trabalho dentro de uma exposição coerente com o tema e composta por artistas de todo o país e ainda ter o mesmo publicado num catálogo caprichado, já é motivo para qualquer um tentar a sorte e produzir para o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Meu primeiro trabalho, uma instalação com fotografias e vídeo, intitulado “sf/sm” e finalizado para o Prêmio, foi convidado para participar da exposição “Geração 00 – A Nova Fotografia Brasileira” em São Paulo [realizada em 2011].

A liberdade de expressão fotográfica é uma característica muito bacana do Prêmio, e falo isso baseado nos trabalhos que enviei, bem como nos trabalhos selecionados nas duas edições. Desejo vida longa ao Prêmio e que a participação de artistas do Brasil inteiro seja cada vez maior.”

Carlos Dadoorian (SP) – Selecionado no Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia em 2010 e 2011.

Olhar acurado sobre a arte contemporânea

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Obra da série Gente no Centro, de Silas de Paula (CE), um dos premiados de 2011.

Com a chegada do final do prazo de inscrições do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, que termina no dia 18 de fevereiro, aproxima-se o período de seleção dos trabalhos de 2012.

O cuidado na escolha da comissão que avaliará as obras é um aspecto importante do Prêmio. Segundo o curador do projeto, Mariano Klautau Filho, “cada comissão tem um perfil e uma dinâmica específicos, porém a ideia é sempre trazer profissionais da arte, crítica e história. Pesquisadores que possam olhar a fotografia em uma dimensão maior, em diálogo com as questões da arte contemporânea. Este ano, além da Heloisa Espada, que é coordenadora do departamento de artes visuais do Instituto Moreira Sales, teremos o Miguel Chikaoka e o Jorge Eiró, artista e professor de artes. Esses perfis profissionais imprimem um diferencial na escolha dos trabalhos.”

Jorge Eiró, que em 2008 participou da comissão julgadora da Rede Nacional de Artes Visuais da FUNARTE, é arquiteto e artista plástico, professor na UFPA e na UNAMA. Mestre em Educação, atualmente cursa o doutorado na mesma área, desenvolvendo pesquisa sobre narrativas visuais autobiográficas. Realizou oito exposições individuais – a mais recente foi Azulejaria da Companhia de Jorge, em 2010 – e participou de várias mostras coletivas nacionais e internacionais.

Heloisa Espada é doutora em História, Teoria e Crítica da Arte pela USP. Trabalha nas áreas de história da arte, crítica e curadoria e além da atuação no Instituto Moreira Salles, integra o Centro de Pesquisa em Arte & Fotografia da Escola de Comunicações e Artes da USP. Além de participar da comissão julgadora do Prêmio, ela abrirá a programação de palestras do projeto, no dia 28 de fevereiro, com o tema “Sombras e arte: Brasília ‘onírica’ e ‘barroca’ – A fotografia de Marcel Gautherot”.

O fotógrafo Miguel Chikaoka, que também é o artista convidado do Prêmio em 2012, completa a comissão de seleção. Com mais de 30 anos de carreira, o idealizador da Associação Fotoativa é conhecido amplamente não só por seu trabalho artístico, mas também como arte-educador de metodologia particular, que desperta a atenção no Brasil e no exterior.

Atualmente empenhado em projetos do Centro Cultural SESC Boulevard e do Núcleo de Formação e Experimentação da Fotoativa, Chikaoka participa ativamente das articulações da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil (REDE) e da Amazônia (REDEAMAZONIA) e iniciará em breve mais uma edição da sua conhecida oficina Photomorphosis – Do Artesanal ao Digital. Na programação do Prêmio, além da mostra como artista convidado, Miguel Chikaoka participará de bate-papo com o público no dia 5 de abril, com o tema Trajetórias do Fotográfico.

O resultado do III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia será divulgado no dia 1º de março. A mostra com os trabalhos selecionados acontecerá de 28 de março a 27 de maio.

Participe!

Última semana de inscrições para o III Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Artistas interessados em participar devem encaminhar dossiê e/ou portfólio, somente em formato impresso, para análise da comissão julgadora, junto com a ficha de inscrição devidamente preenchida. As inscrições são gratuitas.

Trocas e incentivos criativos

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Imagem da série Índios Contemporâneos, de Kenji Arimura, selecionado no Prêmio de 2010.

Um espaço para o intercâmbio de trabalhos de todo o Brasil. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia tem reunido obras de artistas que atualmente despontam no cenário nacional e possibilitado a troca de ideias entre fotógrafos das diferentes regiões do país.

Esta troca é ressaltada pelo paulista Kenji Arimura, selecionado na primeira edição com a série “Índios Contemporâneos”, que conta que há tempos admirava os trabalhos de Luiz Braga e Guy Veloso, “mas realmente não tinha muito conhecimento da fotografia do Pará antes do Prêmio Diário de 2010”. “Além do intercâmbio entre regiões de norte a sul do país, também houve uma troca de linguagem e produção artística dos participantes do Prêmio muito enriquecida, que representou de forma interessante a ideia de diversidade sugerida pelo tema Brasil Brasis, proposto naquele ano.”

Segundo Kenji, o Prêmio Diário foi o seu “primeiro reconhecimento nacional”. No ano passado, sua série “Índios Contemporâneos” ganhou, ainda, o terceiro lugar no Prêmio Conrado Wessel de Arte e recebeu menção honrosa no IPA – Lucie Awards, primeiro prêmio internacional do artista.

O projeto segue: recentemente, ele acompanhou os índios terena, comunidade abordada em “Índios Contemporâneos”, nos Jogos dos Povos Indígenas, em Tocantins, experiência que “rendeu muitas ideias e novas possibilidades de continuar esse estudo sobre uma cultura que a gente conhece tão pouco”.

Estímulo

Imagem da série Aluga-se, de Pedro David, selecionado no Prêmio de 2011.

O mineiro Pedro David foi outro fotógrafo que já passou pelo Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Sua série “Aluga-se”, selecionada no ano passado, foi exposta no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, e, pelos planos de Pedro, deve se transformar em livro em breve. O artista também foi o ganhador do Prêmio Pierre Verger, com outro projeto, “O Jardim”, que ainda está realizando nos arredores de sua casa, na região metropolitana de Belo Horizonte. Além disso, ele está trabalhando na edição de um livro para a série Rota: Raiz, desenvolvida no norte de Minas Gerais entre 2004 e 2008.

Sobre o Prêmio Diário, ele destaca a possibilidade de fazer os trabalhos girarem e o estímulo proporcionado por projetos do gênero: “São iniciativas como esta que fazem com que os trabalhos circulem e que os artistas possam dedicar-se mais ao seu trabalho. Precisamos sempre de mais iniciativas assim, e com aportes financeiros maiores e principalmente com maior descentralização: prêmios mais distribuídos e sem distinção entre eles.”

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia segue este tipo de estrutura – desde a primeira edição, são oferecidos prêmios de valores iguais em três diferentes categorias, o que se mantém em 2012.

Leonardo Sette, de Pernambuco, foi um dos vencedores do ano passado, com o Prêmio Diário Contemporâneo, que contemplou sua série “As Luzes Inimigas”. Ele, que esteve em Belém para a mostra, frisa a recepção que seu trabalho teve no processo até a montagem: “A primeira impressão sobre o Prêmio veio antes mesmo de chegar em Belém, pela delicadeza e cuidado dos organizadores no diálogo e na preparação da exposição”. E também ressalta o intercâmbio com outros artistas: “foi um grande prazer conhecer pessoalmente fotógrafos como Alexandre Sequeira, Guy Veloso, Miguel Chikaoka, Roberta Carvalho e todo o pessoal da [Associação] Fotoativa. Foi também excelente encontrar com fotógrafos de outros estados, também contemplados com o Prêmio, como Silas de Paula [CE], Francilins [MG] e outros”.

Atualmente envolvido na divulgação do filme “As Hiper Mulheres” (que dirigiu com Carlos Fausto e Takmuã Kuikuro), premiado no Festival de Gramado e selecionado para o International Film Festival Rotterdam (Holanda), Leonardo afirma que não interrompe a produção fotográfica. Acaba de criar com Juliana Lapa uma produtora em Recife e entre os projetos para 2012, estão um longa-metragem de ficção e “um livro com uma série mais ampla de fotografias, para uma primeira exposição individual”.

As séries “Índios Contemporâneos”, de Kenji Arimura, “Aluga-se”, de Pedro David, e “As Luzes Inimigas”, de Leonardo Sette, podem ser conferidas nos catálogos Brasil Brasis (2010) e Crônicas Urbanas (2011), ambos disponíveis aqui no site.

Artistas interessados em participar da terceira edição do projeto podem se inscrever até 18 de fevereiro, enviando dossiê e/ou portfólio, somente em formato impresso, para análise da comissão julgadora, junto com a ficha de inscrição devidamente preenchida.

Caminhos para pensar fotografia

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O curador Mariano Klautau Filho no lançamento do III Prêmio e do catálogo 2011. Foto: Irene Almeida.

Desde a primeira edição, o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia concilia três vias de atuação no âmbito das artes: o incentivo à produção artística, o estímulo à reflexão sobre a imagem e, um importante resultado de suas atividades, a contribuição para a formação de acervos.

Ontem, os três pontos foram contemplados em evento no Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, que marcou o lançamento oficial da terceira edição do projeto, o lançamento do catálogo de 2011 e a doação da obra Symbiosis, de Roberta Carvalho, Prêmio Diário do Pará do ano passado, ao Museu da UFPA.

Durante o evento, a diretora da Casa das Onze Janelas, Marisa Mokarzel, e a diretora do MUFPA, Jussara Derenji, frisaram a importância da parceria destas instituições com o Prêmio – em 2012, a Casa das Onze Janelas sediará a mostra principal do projeto, enquanto o MUFPA abrigará a mostra do artista convidado, Miguel Chikaoka. As duas diretoras destacaram o aspecto educativo do Prêmio, que contribui para a formação de público, e o valor que a doação de obras para acervos tem para a população.

Em sua participação, o curador Mariano Klautau Filho destacou a união de esforços de instituições públicas e privadas em prol do desenvolvimento de um projeto que visa a colaborar para o conhecimento e a difusão da fotografia. Ele ressaltou, ainda, a receptividade que o projeto tem tido nacionalmente. Segundo ele, o projeto tem reunido jovens artistas promissores, mas também artistas reconhecidos, que demonstram acreditar na proposta do Prêmio.

Karen Mota, gerente de comunicação da Vale, patrocinadora do projeto, afirmou que é um orgulho para a empresa a possibilidade de apoiar uma iniciativa como esta, que valoriza a cultura no Pará.

Camilo Centeno, diretor da RBA, empresa realizadora do Prêmio, destacou o crescimento do projeto, que surgiu com a ideia de ser um espaço de projeção da arte local e acabou ganhando proporções nacionais, levando o nome do estado para todo o país.

Por fim, o diretor presidente do Diário do Pará, Jader Filho, que ao lado de Roberta Carvalho fez a doação simbólica da obra Symbiosis ao MUFPA, afirmou que um dos grandes fatores para o sucesso do Prêmio é a credibilidade da fotografia paraense, que contribuiu para que em pouco tempo o projeto se tornasse uma realidade nacional.

Oportunidade para o público

O diretor-presidente do Diário do Pará, Jader Filho, faz a entrega simbólica da obra de Roberta Carvalho (dir.) à diretora do MUFPA, Jussara Derenji. Foto: Irene Almeida.

Para Marisa Mokarzel, “a proposta de doar obras dos premiados e dos homenageados aos museus parceiros é como estabelecer um prêmio mais amplo que envolve não somente os museus, mas também a população em geral, uma vez que a obra ao integrar um acervo público poderá ser disponibilizada como objeto de pesquisa, ser exibida inúmeras vezes e em tempos diferentes, de forma distinta, podendo propor os mais variados conceitos conforme as tessituras criadas com obras provenientes de outras coleções. Agrega-se o valor da difusão da arte contemporânea ao de identidade do museu, pois o acervo determina o seu perfil, a sua tipologia”.

Comentando a doação de Symbiosis, Jussara Derenji salientou que a obra foi escolhida por sua afinidade com a concepção de museu contemporâneo do MUFPA, que está trabalhando para a atualização de seu acervo. Segundo ela, “houve de imediato uma identificação com o MUFPA em cujo entorno a obra foi exposta em perfeita integração. A entrega da mesma ao Museu permitirá periódicas mostras, permitindo que o público usufrua das múltiplas leituras que o trabalho enseja”.

A diretora do MUFPA explica que “a formação de acervos em instituições públicas obedece a regras burocráticas que originam longos e difíceis processos que, não raro, acabam impedindo as compras e até mesmo as doações. A maioria dos museus necessita recorrer, então, ao mecanismo incerto de editais lançados por empresas publicas ou privadas, para aumentar e atualizar seus acervos”. Por todos estes fatores, ela ressalta o valor da “iniciativa de empresas ou produtores de eventos que se disponham a contribuir, com doações de qualidade, à formação de acervos institucionais”.

A obra de Roberta Carvalho se une aos trabalhos premiados do fotógrafo Octávio Cardoso, doados ao MUFPA na primeira edição do Prêmio. Nesta terceira edição do projeto, o Museu receberá obras do fotógrafo Miguel Chikaoka.