A Elegia Visual de Zé Barreta

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Elegia Visual, trabalho de Zé Barreta, não é exatamente um ensaio é, antes de mais nada, um lamento. Editado a partir de trabalhos documentais que perpassam a cidade, não pretende constituir um tema propriamente dito, nem um local específico. Sua geografia é outra e está inscrita na imagem apenas e no diálogo possível entre elas.

O artista foi selecionado para a mostra Vastas Emoções e Pensamento Imperfeitos.

Zé Barretta. Foto: Irene Almeida

Confira o seu depoimento:

A minha vivência é no fotojornalismo e no documentarismo. Eu venho fazendo trabalhos documentais há mais de 10 anos e todos com tema, lugar ou questão específica, especialmente em São Paulo, que é de onde eu sou. Para realizar esse trabalho foi feito, na verdade, um exercício de edição. Eu voltei para os arquivos, mas agora sem a preocupação de formar um tema definido e sim de ver como, ao longo desses 10 anos de documentarismo, as imagens dialogavam entre si.

Eu já venho fazendo isso desde o ano passado e quando eu veio o tema do Prêmio, achei de casava bem e fazia essa ligação. Por não ter um tema, esse meu trabalho vai para um lado, posso dizer assim, pessoal. As imagens vão falando e dando outros significados. Eu fiquei muito feliz que fui selecionado.

Essa pausa para olhar os arquivos ocorreu também agora, em 2020, mais intensamente, mas o começo do exercício veio do ano passado.

Nesse ano maluco, eu fotografei uma São Paulo vazia, algo que eu, como fotodocumentarista, nunca tinha visto na vida, mas também produzi em casa. Eu fotografei meu filho e fui mostrando um pouco dessa loucura que é ficar o tempo inteiro você e uma criança trancados dentro de casa.

Então, a questão dos arquivos só se aprofundou e tem muita coisa ainda para mergulhar.

Eu acho que, se tem um legado dessa pandemia, é entender que sim, as nossas tecnologias são muito úteis para conexão, mas nada substitui o encontro. As artes sofreram muito com esse recolhimento forçado porque as obras precisam desse encontro com o público.

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Museu do Estado do Pará, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática, patrocínio da ALUBAR e patrocínio master da VALE.

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Henrique Montagne e o bonde chamado desejo

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Em Um bonde chamado desejo, Henrique Montagne se apropria de fotografias de casais queer de épocas distintas e significativas do começo do século XX. 

As imagens foram achadas na internet e nelas ele cria, através do texto, uma possível narrativa ficcional, mas que poderia ser real em mundo onde as estruturas machistas e homofóbicas do patriarcado não tivessem sido instauradas. 

O artista foi selecionado para a mostra Vastas Emoções e Pensamento Imperfeitos.

Henrique Montagne e Rosely Nakagawa, curadora convidada da edição. Foto: Irene Almeida

Confira o seu depoimento:

Esse trabalho é uma pesquisa que eu já venho realizando, que faz parte da minha pós e que traz a questão dos relacionamentos afetivos, principalmente os relacionamentos queers.

Dentro dessa pesquisa, falar de relacionamento é também falar de história. Eu falo dessa construção dos corpos e dos amores que foram invisibilizados por essa história que a gente possui hoje, que é patriarcal e que escondeu essas narrativas.

A intenção desse trabalho é justamente focar de uma forma mais poética mas, ao mesmo tempo, crítica e política em como poderiam ser possíveis essas histórias, narrativas e imagens na nossa contemporaneidade. Por isso que brinco com essas referências da cultura pop e da literatura.

Eu fico muito feliz dele estar no Prêmio porque é um trabalho, não somente delicado, mas que também aguça essa outra perspectiva que é a de criticar.

Não é só um sonho, poderia ser realidade. É voltar ao passado para construir um novo futuro.

O texto junto das imagens é fundamental. A composição do texto com a imagem é o que constrói esse trabalho. Ele não é só a apropriação das imagens, é a composição dessa narrativa que é visual e textual. São pequenas histórias no paspatour que convidam a pessoa a olhar mais de perto

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Museu do Estado do Pará, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática, patrocínio da ALUBAR e patrocínio master da VALE.

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O retrato do que o corpo fala nas imagens de Karina Motoda

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“3X4”, série de Karina Motoda, é uma alusão direta às tradicionais fotografias utilizadas em documentos oficiais. No entanto, enquanto tais fotos padronizam os retratados, colocando-os na mesma posição, mostrando apenas os seus rostos e determinando a expressão que devem passar, a série parte em outro caminho. 

Ela busca propor questões de como nossas identidade e emoções podem ser expressas e o quanto as deixamos transparecer sem que sequer nos demos conta.

A artista foi selecionada para a mostra Vastas Emoções e Pensamento Imperfeitos.

Karina Motoda e Rosely Nakagawa, curadora convidada desta edição, na abertura da exposição. Foto: Irene Almeida

Confira o seu depoimento:

O trabalho surgiu de uma proposta na faculdade. Eu fazia uma disciplina que tinha fotografia analógica. Aí resolvi trabalhar com formatos pequenos e retratos. 

Quando eu vi o resultado, percebi que lembrava muito as fotos 3×4, mas eu tentava não ficar presa naquela pose padrão. Então, fazia fotos do corpo inteiro, de movimentos diferentes para mostrar que o corpo todo pode comunicar a identidade e os sentimentos da pessoa.

Associamos muito o rosto com as emoções, mas o corpo inteiro diz algo.

Eu gostei muito do nome da exposição falar de “pensamentos imperfeitos” porque eu queria trazer isso no trabalho. Por exemplo, se a fotografia é 3×4, nós somos obrigados a ficar sérios enquanto nos outros retratos sempre buscamos mostrar o nosso melhor lado e a nossa felicidade.

Nós temos sentimentos e colocamos valores neles, mas não existe certo e errado.

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Os diálogos familiares de Melvin Quaresma

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Em Diálogos familiares, Melvin Quaresma fotografa a casa da avó materna em todas as viagens que faz até Belém, sua terra natal. Tornaram-se personagens da série suas primas e primos, que agora brincam, convivem e crescem num espaço que também foi pátio de sua própria infância.

O artista foi selecionado para a mostra Vastas Emoções e Pensamento Imperfeitos.

Melvin Quaresma. Foto: Irene Almeida

Confira o seu depoimento:

Quando comecei a fotografar, isso por volta de 2012, eu percebi que gostava muito de fotografar pessoas, mas, ao mesmo tempo, eu sou muito tímido. Eu experimentei muito, mas o que mais gostei de fotografar era exatamente aquilo que eu tinha mais dificuldade: gente. Foi aí que comecei a fotografar a minha própria família.

Eu sou paraense, mas quando iniciei na fotografia já morava no Sul. Então, quando eu vinha visitar a minha família aqui, via que era um lugar em que eu estava sempre muito à vontade, pois era na casa da minha avó, que é o lugar onde eu cresci, com todas as pessoas que conheço.

Eu fui exercitando a minha fotografia assim e ela foi chegando em um ponto muito de saudade mesmo, de fotografar a infância dos meus primos como se estivesse fotografando a minha própria infância, fotografando lembranças muito fortes que eu tenho. Fui fazendo fotografia com esse sentimento de pertencimento em um lugar que também é muito meu, que é a casa 913, a casa da minha avó.

Nesse trabalho que está no Diário Contemporâneo, eu conversei com as minhas primas sobre várias fotos que eu tinha feito ao longo desses anos. Nós entramos em assuntos sensíveis, engraçados, tristes e em outros bem do tipo conversa de primo mesmo. 

Assim, se criou uma outra coisa que são as fotos junto das conversas. Eu deixei o gravador rodando, então ele gravou horas de papo.

Eu acho que as conversas transformaram tudo o que eu já tinha feito para caminhos que jamais poderia imaginar. Depois que as minhas primas me dizem algo sobre a foto, a imagem não é mais só uma foto, ela se transforma na mistura do que ela representa para cada um de nós.

Ressignificamos várias imagens juntos.

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Museu do Estado do Pará, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática, patrocínio da ALUBAR e patrocínio master da VALE.

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As flores da casa de Anna Ortega

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A casa, para Anna Ortega, artista que levou o Prêmio Residência Artística Belém, sempre foi um ambiente de acolhida. Não há casa sem flores é um projeto ainda em andamento no qual ela mergulha neste lugar simbólico. 

A artista fará a residência artística em Belém com a orientação de Alexandre Sequeira em 2021.

Anna Ortega. Foto: Divulgação.

Confira o seu depoimento:

Eu sou uma mulher criada por mulheres. Fui criada pela minha mãe, minha avó e pela minha tia. Quando eu nasci, a minha primeira noite no mundo foi com a minha avó, dormindo nos braços dela. A minha casa sempre foi uma casa de mulheres.

Aos poucos eu fui me interessando pela fotografia, pelo vídeo, pela imagem e pela expressão. Eu sempre me interessei pelo cotidiano e pelo que era ordinário, o que era miúdo.

Ano passado, em 2019, eu comecei esse trabalho que se chama “Não há casa sem flores”. O título vem de um hábito que nós temos, herdado da minha avó, que é o de sempre cultivar flores em casa e sempre ter um vaso com flores.

Desde o ano passado eu venho documentando essa minha casa e as mulheres dela a partir de retratos. A princípio, era um trabalho estritamente fotográfico documental da casa, do cotidiano, do nosso elo. 

Nós somos muito juntas e isso é uma coisa que vem atravessando o trabalho. Nós temos um corpo nosso comum que é de muito amor e muito afeto. Esse cuidado e esse carinho que me levaram a querer entender as imagens que isso podia trazer.

O que apareceu aos poucos no processo foi o interesse em trazer o vídeo também para o trabalho. O vídeo que está na exposição deste ano do Diário Contemporâneo é uma reunião de vários vídeos que fiz no ano passado, nos quais eu sento à mesa e começo a gravar da perspectiva das flores do vaso que fica sempre nela.

Eu observo e ouço essas conversas, além de estar presente conversando. 

Foi uma forma diferente que eu encontrei para além do retrato da fotografia, mas que não deixa de ser um retrato também. É uma forma diferente de retratar, fazendo isso ao compartilhar um momento. Meu interesse foi o de entender esse cotidiano, além de ouvir e ver os gestos dele.

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A riqueza do candomblé nas imagens de Arthur Seabra

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Em Sob a luz dos candeeiros: movimentos do sagrado, Arthur Seabrafotógrafo paraense residente em Salvador, conta que os candeeiros precisaram ser utilizados em virtude da falta de energia elétrica ocasionada pela queda de um poste. Um cenário ancestral foi recriado pelo “acaso”, parecido com aqueles do século XIX e início do XX no Brasil, quando o povo preto em diáspora praticava o culto a orixá sob essas mesmas luzes, os mesmos cânticos, danças e instrumentos musicais. Arthur Seabra foi selecionado para a mostra Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos.

Arthur Seabra e seu trabalho selecionado durante a montagem. Foto: Irene Almeida.

Confira o depoimento do artista:

Eu fotografo candomblé há um tempo já, desde 2015. A minha relação enquanto fotógrafo documentarista era, inicialmente, como pesquisador e depois com o passar dos anos eu entrei no mundo do candomblé e me tornei um adepto.

A minha relação com as pessoas desse ensaio, especificamente, é muito próxima porque eles são componentes do candomblé que eu frequento. É uma relação de confiança e respeito.

Eu curso antropologia então, de alguma maneira, eu sempre busquei conhecer, me informar, sempre tive interesse em conhecer mais as religiões de matriz africana, tanto que cheguei a me iniciar. É uma relação de família, a gente constituiu uma comunidade, nós somos uma comunidade de terreiro.

A nossa roça está localizada dentro de uma área rural no município de Camaçari, no interior da Bahia, dentro de uma reserva de Mata Atlântica protegida. A nossa vizinhança é de pescadores, agricultores, pessoas que trabalham com o cultivo, pequenos vendedores e artesãos. 

Como nós desenvolvemos o nosso trabalho em respeito à natureza tanto quanto eles, a gente goza de uma respeitabilidade. Mas isso eu sei que é algo pontual, a gente é a exceção, porque o que a gente vê, de uma maneira geral, é que os terreiros e as comunidades que estão em locais urbanizados sofrem muito mais com a intolerância religiosa, com o racismo religioso e com o terrorismo religioso.

A gente tenta sempre desenvolver uma boa relação, inclusive, trazendo eles para perto da gente no sentido de interagir, trocar experiencias e aprender o manejo que eles tem com a natureza.

Nós, como praticantes de religião de matriz africana, temos a natureza como base do nosso culto. Na história, elas sempre foram demonizadas e a gente procura mostrar para os nossos vizinhos que não é nada dessa imagem que nos foi pintada.

Detalhe de “Sob a luz dos candeeiros: movimentos do sagrado”, de Arthur Seabra. Foto: Irene Almeida

Nós temos um respeito profundo pela natureza, pelas relações. A gente tenta sempre combater essa ideia que foi construída e essas fotos também seguem neste sentido.

É mostrar e não mostrar. Elas têm algo próprio da nossa religião que é o segredo, uma vez que, historicamente, ela sempre foi muito atacada e precisamos desenvolver mecanismos de autodefesa e proteção. 

O meu trabalho fotográfico tem hoje em dia essa responsabilidade de mostrar a beleza do nosso culto, a riqueza que nós temos e a importância cultural do que o candomblé e que os nossos ancestrais escravizados trouxeram para a formação do povo brasileiro.

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Museu do Estado do Pará, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática, patrocínio da ALUBAR e patrocínio master da VALE.

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Paula Sampaio é a artista convidada do 11º Diário Contemporâneo

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Nascida em Belo Horizonte, Paula Sampaio migrou para a Amazônia ainda criança com a família. Formou-se em Jornalismo pela UFPA e atuou como fotojornalista por muitos anos.

Seu olhar atento registrou diversas transformações ocorridas na região, seja no dia a dia como repórter fotográfica ou em seus ensaios documentais.

Seus projetos de fotografia falam sobre as migrações na Amazônia, bem como as comunidades e vivências que são atravessadas por grandes estradas abertas na região, como as rodovias Belém–Brasília e Transamazônica.

Ocupação, colonização da região, memórias orais e patrimônio imaterial são alguns dos temas recorrentes em seu trabalho. Suas séries são reflexões sobre a natureza e a fragilidade dos seres.

Foto: Paula Sampaio

Atualmente é responsável pelo Núcleo de Fotografia do Centro Cultural Sesc Ver-o-Peso e continua desenvolvendo seus projetos. No momento, dedica-se a organizar seu arquivo pessoal.

Paula Sampaio é a artista convidada da 11ª edição do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia.

Confira a entrevista:

Você é alguém que migrou, que saiu de Belo Horizonte e veio para Belém. Seus trabalhos têm muito desse olhar sobre os trajetos, os percursos. Acredita que há uma ligação com a sua própria vivência?

Pois é, sou parte de uma família migrante. Quando viemos para a Amazônia nos anos de 1970, já partimos de Rio Preto/SP, só nasci em Minas. Passei a minha infância mudando de lugar. Moramos em vários municípios ao longo das rodovias Belém-Brasília (nos estados do Maranhão, Pará e Goiás) e perto de Carolina, na Transamazônica. Então, trago em mim essa vivência e também esse espírito viajante. As estradas são a minha casa.

Você atuou por muitos anos como repórter fotográfica. Pode falar um pouco dessa rotina? Sente falta?

Foram quase 30 anos de um cotidiano intenso. Fotografando praticamente todo dia, uma ação visceral, onde tive a chance de atravessar em questão de horas muitas existências, além do prazer de ver essa produção chegar na vida de milhares pessoas, – às vezes bem, e em outras mal – o que também é um grande aprendizado. Essa partilha foi um exercício incrível e eu aproveitei e me entreguei a esse ofício com muita intensidade sempre, aprendi muito e utilizo essa experiência para tudo que faço. Se sinto falta? Da prática sim, mas a forma como isso se dá cotidianamente nas redações atualmente, que foram o espaço das minhas experiências, não. Com certeza fiquei muito mais exigente. Claro que o jornal impresso me fascina, até faço os meus (risos). Criei um projeto, o ‘Folhas Impressas”, que é o reflexo da minha paixão.

O fotojornalismo tem uma pressa em comunicar o agora. No fotodocumentarismo o tempo é um pouco mais generoso com os projetos. É isso mesmo?

Muitas vezes me perguntaram isso e eu sempre respondia que sim, o tempo era um diferencial determinante. Mas hoje, ando desconfiada desse senhor “O Tempo”, ele tem revelado novas faces para mim. Então, talvez seja o espaço e a dinâmica da prática e como isso se resolve no” tempo da comunicação”, a grande questão. E também porque esses conceitos de fotojornalismo, documentarismo, vão sendo acrescidos de muitas camadas no curso da história. Deixo essa provocação e não uma resposta.

Virgínia Feitosa atravessando atoleiro no momento em que desiste de viver na Transamazônica. Foto: Paula Sampaio

Seus ensaios e pesquisas falam muito sobre memória, migração, natureza e ocupação. Quanto tempo leva uma pesquisa como a da Transamazônica ou do Lago do Esquecimento?

Esses trabalhos todos estão na minha vida, então o tempo é a duração da minha própria existência. É curioso isso, mas de verdade não sinto que tenha terminado nada, estou sempre encontrando um novo começo dentro de cada uma dessas temáticas e também uma nasce da outra. “O Lago do Esquecimento” é um bom exemplo, é “filho” do trabalho nas estradas (Transamazônica e Belém-Brasília, que realizo desde 1990 e nunca acabei). Nasceu das minhas viagens em busca de comunidades alagadas no trecho da Transamazônica, no município de Novo Repartimento, que desapareceu com a inundação provocada pelo represamento do Rio Tocantins durante a construção da Hidrelétrica de Tucuruí. Na busca pelos atingidos pela barragem acabei encontrando outros seres, as árvores fossilizadas, que formam essa paisagem trágica e todo o mundo que vive nesse lugar inacreditável e suas histórias.  E do “Lago do Esquecimento” nasceu a fotoinstalação “Árvore” e por aí vai. Então, para mim, o tempo de um trabalho é enquanto eu viver e sentir vontade de revisitar esses espaços todos, reencontrar as pessoas…. Assim, a única coisa que finalizo são as etapas, batizo com um nome e sigo com tudo no meu coração. Nesse aspecto a fotografia é uma linguagem muito generosa porque ela sempre nos oferece a possibilidade de renascimento.

Há muito da relação com o outro em seus ensaios, com as pessoas e as comunidades. Como que se dão essas relações?

Sempre foi natural. Trabalho em áreas de migração onde encontro pessoas com quem me identifico. Tem muito mineiro, baiano, maranhense, então, é como se eu estivesse frequentando a casa de conhecidos e o ambiente também. Desde criança vivo na amazônia, tudo é familiar.

Há também a denúncia. Qual o peso da responsabilidade em comunicar as desigualdades e ocupações que vêm acontecendo?

A responsabilidade é tentar tratar essas questões a partir da experiência de quem está mergulhado nelas: os protagonistas dessas histórias. Buscar meios para que eles mesmos falem sobre sua condição, por isso trabalho com relatos, memórias. Foi a forma que encontrei de tentar comunicar tudo isso de forma partilhada e com relação às imagens, elas se impõem, eu só tenho que estar disponível. Agora, nos últimos três anos tenho me dedicado a estudar e rever meu arquivo que está se perdendo, então, não estou presente na cena. Ocorre que essas temáticas que são a base do trabalho que faço estão no nosso presente, assim acabam servindo de referência para pesquisas (TCCs, teses, dissertações, livros didáticos) e outras criações como, por exemplo, o filme “O Reflexo do Lago” do Fernando Segtowick, baseado no livro “O Lago do Esquecimento” que tem tido uma ótima repercussão. E assim as responsabilidades vão sendo divididas. Aliás, o movimento fotográfico em Belém sempre teve essa característica meio híbrida e partilhada, isso é uma sorte, nunca estamos sozinhos.

PAULA SAMPAIO

Nascida em 1965, em Belo Horizonte (MG), veio ainda menina para a Amazônia com sua família e em 1982 escolheu viver e trabalhar em Belém (PA). Durante o curso de Comunicação Social, na UFPA, descobriu a fotografia e, em seguida, foi aluna de Miguel Chikaoka, na Associação Fotoativa. Optou, então, pelo fotojornalismo. A sua principal referência nessa área foi o Jornal O Liberal, onde trabalhou como repórter fotográfica entre 1988 e 2015. Desde 1990 desenvolve projetos de documentação fotográfica e ensaios autorais sobre o cotidiano de trabalhadores, em sua maioria, migrantes que vivem às margens dos grandes projetos de exploração e em estradas na Amazônia, principalmente nas rodovias Belém-Brasília e Transamazônica. Além de imagens, também guarda sonhos e histórias de vida (escritos e/ou contados) de pessoas que fotografa nesses caminhos.

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Museu do Estado do Pará, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

O deslocamento do olhar e da vivência: Entrevista com Ana Lira

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-> Inscrições prorrogadas até 25/05. Saiba mais AQUI.

Em 2020, o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia trouxe alguns dos nomes que já passaram pelo projeto para ajudar a compor esta 11ª edição a muitas mãos. Ana Lira, fotógrafa, pesquisadora e especialista em Teoria e Crítica da Cultura, é uma delas.

No ano de 2018, Ana foi selecionada para a exposição, ministrou oficina e conversou com o público de Belém sobre os seus trabalhos que trazem muito do fazer e do pensar coletivo.

Este ano, ela retorna como tutora da Residência Artística Recife que acolherá, na capital pernambucana, um artista paraense ou residente no estado.

As inscrições para esta 11ª edição, que tem ainda outros dois prêmios de residência artística, foram estendidas até 30 de abril e são realizadas somente pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

Ana Lira. Foto: Maria Chaves

Confira a entrevista com Ana Lira:

P: Qual a importância da residência para a formação do artista? Na residência, há o deslocamento, a mudança de cenário, de pessoas. O que isso pode gerar de ativação no pensar e no fazer artístico?

R: Vou responder as duas em uma, porque a segunda pergunta é uma resposta para a primeira. Eu creio que é ter a oportunidade de se deslocar e observar as coisas a partir de outras vias. Encontrar pessoas e contextos que, por viverem outras dinâmicas, temporalidades, circunstâncias e construções ajudam a olhar para questões da nossa vida que nos permitem afinar o olhar para etapas interessantes que ainda não desenvolvemos.

E, ao ver a nossa vida por outras guias, podemos olhar para o que estamos elaborando de maneira igualmente distinta. Este deslocamento faz com que possamos abrir outros processos criativos, ampliar vivências, desenvolver trechos de projetos que eram valorizados, encontrar outras formas de responder às questões que cruzam nossos caminhos.

Eu não penso na conexão residência – trabalho artístico em primeira instância, porque acho que esse deslocamento não muda o nosso trabalho. Ele muda a nossa vida e é essa transformação na vida que vai colocar a criação em outro lugar, porque agregamos outros referenciais para dialogar com o que tínhamos até aquele momento.

Então, mais do que ficar imerso completamente em um trabalho, na residência, a gente deve estimular que qualquer residente viva a cidade e as experiências que ela oferece – e sinta seus processos dentro disso.

P: Seus processos artísticos pessoais são construídos muito com o fazer coletivo e em parceria com comunidades. Ou seja, ter o outro junto de si já é algo que faz parte da sua prática. Assim, como você recebeu o convite do Diário Contemporâneo para ser a tutora de uma residência do projeto?

R: Então, eu acho que a gente precisa ampliar um pouco o conceito de comunidade. Eu estava falando sobre isso em outra residência que eu fiz, ano passado. Todo mundo vive em comunidade, porque a gente articula nem que seja um mínimo de experiências em comum com algum grupo de pessoas.

A questão é que algumas comunidades possuem acesso a diversas coisas que potencializam a vida e outras comunidades são sacrificadas pelos governos nesses acessos – e são forçadas pelas circunstâncias a se reinventar. Não gosto muito de pensar nessa ideia de “comunidade como o outro”, como algo externo e diferente da nossa vida como sociedade. Acho que essa vivência de quarentena com o coronavírus tem sido precisa em nos mostrar isso…

A questão é que as sensibilidades cotidianas me interessam. Eu fui criada em um bairro distante e fronteiriço; que por décadas dividiu a rotina entre ser o bairro da universidade e, ao mesmo tempo, manter grupos de moradores cuja rotina migrava entre o ser ribeirinho e o ser rural. Essas convivências removem muitas noções estagnadas de hierarquia e nos colocam em outro lugar.

Hoje, estamos vivendo uma super gentrificação neste bairro, mas foi a vida nele que me ajudou a perceber, em meus mais diversos deslocamentos, a importância de não cortar o elo entre a materialização criativa e as bases contextuais que a geraram. Percebi a importância de não levar a materialização para o lugar de isolamento, a ponto de perder totalmente a referência de onde partiu, porque isso não faz sentido para as cosmologias da qual eu faço parte.

Acho que por trazer essas referências e por ter com o prêmio uma relação de absoluta sinceridade, no sentido de frequentemente dar retornos sobre como as dinâmicas dele afetam a produção da fotografia/artes visuais em nosso entorno, que eu fui convidada. Essa conversa existiu pela primeira vez na edição de 2019, mas ano passado foi impossível para mim orientar qualquer pessoa, porque eu estava em um ciclo intenso de viagens. Este ano, nós acordamos de receber a residência em Recife e espero que, apesar de qualquer contexto dessa pandemia, seja uma experiência boa para quem vier.

Terrane. Foto: Ana Lira

P: O que aqueles que desejam se inscrever na Residência Artística Recife podem esperar de atividades e ações propostas.

R: Recife é uma cidade bem intensa em termos de criação, mas pouco institucional nesse sentido. Um residente cuja prática esteja focada em museus, galerias e espaços mais institucionais pode ter poucas opções na cidade. Há opções, mas não é o nosso forte…

Por outro lado, é  um lugar de muita criação livre, vivências, circulação e experiências cotidianas. As trocas com outros artistas e com a própria cidade já oferecem a possibilidade de repensar as experiências de vida. Então, o ideal é que quem aplicar para Recife saiba que o aprendizado vai estar na observação cotidiana e nas potências de intercâmbio com outras cidades da região metropolitana, agreste e sertão.

Nesse sentido, há uma certa conexão com Belém, cuja experiência sensorial transforma qualquer vida e processo artístico. Então, precisa vir aberto para esses entrelaçamentos. Aberto para conviver, sentir cheiros, ouvir sonoridades, ficar preso no trânsito, sair de casa sem hora pra voltar, emendando experiências diferentes em um único dia, mesmo com muita chuva. Ver uma cidade que fecha cedo e acorda muito cedo – e que se pode construir experiências de rever esse lugar. Pensar na praia e no tubarão ao mesmo tempo, encontrar alguém no meio do caminho e se apaixonar; enfim, todos esses deslocamentos possíveis. E sentir o que isso transforma nos processos de criação…

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve até o dia 30 de abril. Informações: (91) 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

Experiências mais compartilhadas: Entrevista com Mariano Klautau Filho

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-> Inscrições prorrogadas até 25/05. Saiba mais AQUI.

Três prêmios de residência artística e uma mostra coletiva com a curadoria convidada de Rosely Nakagawa. É assim que o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inicia a convocatória para a sua 11ª edição. Depois de completada uma década de atuação, o projeto decidiu propor experiências do pensar e do fazer artístico mais compartilhadas. As inscrições estão na reta final e seguem abertas só até o dia 29 de março, realizadas pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

O tema deste ano vem buscar a provocação para o artista na literatura. “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” é uma referência direta ao título do romance de Rubem Fonseca.

Belém, Pará, Brasil. Cultura. Mariano Klautau Filho (Curador e coordenador Geral do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia). 27/02/2020. Foto: Irene Almeida.
Mariano Klautau Filho, curador e coordenador geral do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Foto: Irene Almeida

Um livro que, nas palavras de Mariano Klautau Filho, curador do projeto, “fala essencialmente das fronteiras da ficção, em que a narrativa é constantemente atravessada pela presença do cinema na vida mental do protagonista e, portanto, tornando-se uma ferramenta de deslocamento poético para a vida real”.

Literatura e cinema atravessam a fotografia e a levam para as possibilidades do contemporâneo em uma fluidez de linguagens e significações.

Confira a entrevista com o curador:

P: O livro de Rubem Fonseca é mencionado por muitos leitores como uma história frenética. Como você vê isso relacionado com a contemporaneidade, a arte e a comunicação imediatista dos dias atuais?

R: O livro e, especialmente o seu título, é uma provocação ao artista. Não é preciso ler o romance ou investigar profundamente seus significados. Se o artista puder fazer isso, ótimo. Se não, ele poderá ficar com o efeito imaginativo e plástico que o título pode evocar, pois ele é bastante intenso.

O romance tem uma narrativa de certa forma veloz, mas não é isso que importa muito e sim, o fato de que o protagonista é um cineasta que está o tempo todo vivendo imaginativamente no limite entre imagem e texto, roteiro cinematográfico e realidade, ou seja, alguém imerso na experiência da ficção.

P: O que seriam estas vastas emoções?

R: Prefiro que o artista reflita sobre e faça do seu trabalho uma experiência emocional intensa. Não sei o que significa exatamente “Vastas Emoções” mas a expressão me sugere intensidade, paixão ou até uma certa grandeza do sentimento humano.

Cada artista pode interpretar do seu jeito, assim como a ideia de um pensamento imperfeito é muito sedutora no sentido de que faz parte da humanidade pensar, refletir, errar, acertar, pensar, debater, refletir infinitamente como um exercício contínuo.

P: O protagonista sonha sem imagens. Hoje o nosso mundo é extremamente visual. Seria essa uma forma de neutralizar o que está ao redor e se concentrar nas imagens que estão dentro de nós apenas esperando para se materializar?

R: Essa é uma boa ideia. Pensar um mundo sem imagens, mas como pensá-lo sendo um artista visual? Por outro lado, o personagem imagina muitas coisas e foge de uma série de eventos em que a realidade se mistura com suas imaginações. Enfim, a provocação é bem aberta, é uma experiência com o caráter visual da palavra e das expressões.

P: Ano passado, o projeto completou uma década de atuação. Foram realizadas diversas experiências e formatos ao longo destes 10 anos. O que traz, então, este novo ciclo?

R: Traz basicamente uma curadoria convidada (Rosely Nakagawa) que irá assumir a construção e a narrativa da grande mostra. Traz também os prêmios dedicados exclusivamente às residências artísticas porque queremos centrar o foco na formação do artista sem precisar exigir dele um resultado, mas propor um processo.

E mais: uma comissão científica para pensar de modo organizado o conceito da programação de palestras, oficinas e encontros com pesquisadores, levantando alguns temas da arte em diálogo com outros campos.

P: O projeto está propondo experiências mais compartilhadas. Fale um pouco sobre as residências neste sentido.

R: Como falei anteriormente, é o sentido processual e de formação que nos interessa quando propomos as residências.

A conversa que os artistas residentes terão com o público ou todo o tipo de trabalho em processo que poderá ser gerado nos coloca em contato com a arte como pesquisa e conhecimento. É isso que queremos estimular no artista, que pense em seu processo, que pense sobre o que quer dizer no seu trabalho, que não só limite sua participação à exibição de trabalhos.

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve só até o dia 29 de março. Informações: Rua Gaspar Viana, 773 – Reduto. Contatos: (91) 3184-9310, 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

Flavya Mutran é a artista convidada da nona edição

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Mestre e doutora em Artes Visuais pelo PPGAVI do Instituto de Artes da UFRGS, com pesquisas sobre arquivos fotográficos e compartilhamentos de imagens via web, Flavya Mutran, atualmente é professora do Departamento de Design e Expressão Gráfica na Escola de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre (RS), onde vive desde 2009.

Ela integrou a comissão de seleção do 9º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia do qual também é artista convidada. Trabalhos conhecidos como EGOSHOT, BIOSHOT e DELETE.use serão apresentados na mostra “Lapso”.

Na entrevista a seguir, Flavya conversa sobre a sua relação com a fotografia e com o nosso mundo mediado por imagens.

Da série DELETE.use. Foto: Flavya Mutran

Seus trabalhos abordam muito a questão da fotografia como elemento construtor de memorias. Seriam as fotografias as histórias da representação? 

De certa forma sim, já que de um jeito ou de outro, fotografias acabam representando alguma coisa ou alguém, certo? Se pensarmos em fotografias como aquilo que opera com a nossa noção de tempo, de espaço, de escala, e de tantas outras formas de presentificações, então elas são mesmo empreendimentos memoráveis. Aliás, essa é uma maneira ótima de olhar para fotografias: ter a devida consciência de que elas não são testemunhas fiéis dos acontecimentos, ainda que teimosamente a gente adore se deixar enganar por elas.

Fotografias e fotografados representam, apresentam, inventam. Tem sido assim desde o princípio da História da Fotografia.

A internet se tornou uma grande enciclopédia virtual e você mergulhou nela em pesquisas que tem como foco desde a figura humana até o “apagamento” desta. O que te levou a investigar esse assunto?

Se para alguns a fotografia enquanto linguagem, miniaturizou e transformou o mundo numa versão portátil, a internet é sua plataforma de embarque e desembarque. Ela tem sido o ponto de partida dos meus últimos trabalhos não apenas pelo viés enciclopédico, mas principalmente porque parte da metodologia de acesso aos canais da rede envolve algum tipo de relação PALAVRA + IMAGEM e isso sim move meu trabalho.

Foi da relação de interdependência entre texto e fotos, que comecei a olhar como as pessoas se comportam e como transformam a si mesmas em lugares, IPs localizáveis de várias partes do mundo.

Mapear endereços virtuais e fotografar essas autorrepresentações, para mim, é quase o mesmo que fazer uma viagem para algum território diferente do meu sem, no entanto, precisar que eu tire os pés de casa.

Assim, o melhor da interdependência palavra-imagem na web é a possibilidade de construir relações de sentido diferentes para uma mesma imagem, alterar os pontos de observação sem mudar o ponto de vista inicial do fotógrafo precursor de determinada cena. Gosto de pensar que criar apagamentos ou sobreposições de elementos visíveis em fotografias do passado são alternativas de futuro para narrativas tidas como encerradas. É como se eu convidasse outros olhares para atuar em novas fábulas em cenários já conhecidos.

A artista convidada desta edição.

Atualmente vivemos em um mundo com o qual nos relacionamos através das imagens, mas, ao mesmo tempo, também nos fazemos presentes produzindo conteúdo visual diariamente. Qual seria então o papel cultural da fotografia para você?

Segundo Paul Ricoeur, nossa relação com o tempo é feita da mistura entre o histórico e o ficcional. Nesse sentido, o imaginário é fundamental pois a ficção de certa forma é também histórica, inerente a todos nós. A fotografia, cada vez mais acessível e democrática, é uma riquíssima linguagem para construção do imaginário, seja factual, histórico ou ficcional, certo? Através dela é possível criar discursos que misturam vivências e vocabulários pessoais com repertórios e dinâmicas coletivas, e é daí seu papel cultural tão relevante. Cada um de nós pode assumir-se como fotógrafo e, portanto, como narrador. A fotografia, então é esse canal (auto) discursivo. Este, aliás, é o mote que o Mariano Klautau Filho criou para o edital dessa edição do Prêmio, “Realidades da Imagem, Histórias da Representação”, testando e talvez atestando em que medida a fotografia está a serviço dos dois extremos do imaginário contemporâneo.

Em muitos dos seus trabalhos há o uso de suportes diferentes como vídeo, gravura, instalação, entre outros. Eu percebo todos eles como desdobramentos a partir da fotografia. É correto afirmar isso? Por que?

Sim, todo suporte que eu adoto como meio deriva de uma matriz fotográfica. Sou uma legítima representante da espécie HOMO PHOTOGRAPICUS, descrita por Michel Frizot como aquele tipo de criatura que aprendeu a ver e se expressar através de lentes. Mas para ser bem honesta, a fotografia como meio apenas não basta. Nunca bastou para mim. Ela sempre foi rápida demais enquanto ferramenta de produção de imagem, daí que nunca me dei por satisfeita de encerrar assuntos depois do disparo da câmera.  Sempre procurei entender o tempo de maturação da imagem após a captura, seja no laboratório químico, escavando negativo, criando camadas sobre o papel ou transferindo imagem para tela ou metal. Tudo procurando uma maneira de permanecer no campo das maquinações da imagem.

Como você enxerga a nossa relação atual com as imagens? Há quem diga que vivemos uma saturação de selfies, mas não seriam elas tentativas de autoconhecimento? 

A principal atração que fisga nossa atenção na web é a imagem. Fotografias e vídeos são as iscas perfeitas para aumentar o tempo de navegação. É a partir de imagens que nos colocamos diariamente à mercê de um sistema codificado que regula todo e qualquer tipo de trânsito de informação em rede, mesmo que a maioria de nós sequer saiba quais são as implicações reais desse vínculo. Não é à toa que o termo mais adequado para definir nosso papel na web seja o de USUÁRIO, tão próximo ao consumo de drogas, justamente porque imagem alicia, vicia, pode causar dependência.

Não dá para saber em que medida o excesso de imagens ao qual somos constantemente bombardeados atrapalha ou contribui para o nosso autoconhecimento. Fato é que desde a popularização dos dispositivos móveis de acesso à internet as fronteiras entre o espaço público e o privado sofreram grandes rupturas. A partir da época da chamada WEB 2.0, lá pelo início dos anos 2000, o ego humano parece ter se agigantado dando o tom das relações objetivas e subjetivas que tratam do local e do global na cena contemporânea. Cada dia fica mais claro que, por trás das páginas pessoais, há muitos interesses corporativos das grandes empresas que financiam as redes gratuitas da internet escusos nos algoritmos que lhes constituem.

Se hoje o meio virtual é o guardião de nossas histórias mais secretas e da nossa imagem mais pública, que preço pagaremos pela guarda consignada da nossa memória? Quem nos assegura que no futuro teremos acesso fácil aos nossos arquivos pessoais de textos e imagens que estão online? Será que mantê-los e acessá-los ainda será gratuito? Na falta de máquinas que decodifiquem esses algoritmos, quem garante que seremos capazes de lembrar do nosso tempo e das muitas versões digitais das nossas fotos, textos, sons, entre outros?

Da série EGOSHOT. Foto: Flavya Mutran

O que você anda pesquisando atualmente?

Só duas coisas atualmente atraem minha atenção e curiosidade: as fotos da Curiosity Rover da NASA e uma vontade enorme de um dia cruzar com o carro do Google Street View!

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é um projeto nacional realizado pelo jornal Diário do Pará com apoio da Vale, colaboração da SOL Informática e apoio institucional do Museu do Estado do Pará – MEP, do Sistema Integrado de Museus/Secult-PA e do Museu da UFPA.