O deslocamento do olhar e da vivência: Entrevista com Ana Lira

Share This:

Em 2020, o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia trouxe alguns dos nomes que já passaram pelo projeto para ajudar a compor esta 11ª edição a muitas mãos. Ana Lira, fotógrafa, pesquisadora e especialista em Teoria e Crítica da Cultura, é uma delas.

No ano de 2018, Ana foi selecionada para a exposição, ministrou oficina e conversou com o público de Belém sobre os seus trabalhos que trazem muito do fazer e do pensar coletivo.

Este ano, ela retorna como tutora da Residência Artística Recife que acolherá, na capital pernambucana, um artista paraense ou residente no estado.

As inscrições para esta 11ª edição, que tem ainda outros dois prêmios de residência artística, foram estendidas até 30 de abril e são realizadas somente pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

Ana Lira. Foto: Maria Chaves

Confira a entrevista com Ana Lira:

P: Qual a importância da residência para a formação do artista? Na residência, há o deslocamento, a mudança de cenário, de pessoas. O que isso pode gerar de ativação no pensar e no fazer artístico?

R: Vou responder as duas em uma, porque a segunda pergunta é uma resposta para a primeira. Eu creio que é ter a oportunidade de se deslocar e observar as coisas a partir de outras vias. Encontrar pessoas e contextos que, por viverem outras dinâmicas, temporalidades, circunstâncias e construções ajudam a olhar para questões da nossa vida que nos permitem afinar o olhar para etapas interessantes que ainda não desenvolvemos.

E, ao ver a nossa vida por outras guias, podemos olhar para o que estamos elaborando de maneira igualmente distinta. Este deslocamento faz com que possamos abrir outros processos criativos, ampliar vivências, desenvolver trechos de projetos que eram valorizados, encontrar outras formas de responder às questões que cruzam nossos caminhos.

Eu não penso na conexão residência – trabalho artístico em primeira instância, porque acho que esse deslocamento não muda o nosso trabalho. Ele muda a nossa vida e é essa transformação na vida que vai colocar a criação em outro lugar, porque agregamos outros referenciais para dialogar com o que tínhamos até aquele momento.

Então, mais do que ficar imerso completamente em um trabalho, na residência, a gente deve estimular que qualquer residente viva a cidade e as experiências que ela oferece – e sinta seus processos dentro disso.

P: Seus processos artísticos pessoais são construídos muito com o fazer coletivo e em parceria com comunidades. Ou seja, ter o outro junto de si já é algo que faz parte da sua prática. Assim, como você recebeu o convite do Diário Contemporâneo para ser a tutora de uma residência do projeto?

R: Então, eu acho que a gente precisa ampliar um pouco o conceito de comunidade. Eu estava falando sobre isso em outra residência que eu fiz, ano passado. Todo mundo vive em comunidade, porque a gente articula nem que seja um mínimo de experiências em comum com algum grupo de pessoas.

A questão é que algumas comunidades possuem acesso a diversas coisas que potencializam a vida e outras comunidades são sacrificadas pelos governos nesses acessos – e são forçadas pelas circunstâncias a se reinventar. Não gosto muito de pensar nessa ideia de “comunidade como o outro”, como algo externo e diferente da nossa vida como sociedade. Acho que essa vivência de quarentena com o coronavírus tem sido precisa em nos mostrar isso…

A questão é que as sensibilidades cotidianas me interessam. Eu fui criada em um bairro distante e fronteiriço; que por décadas dividiu a rotina entre ser o bairro da universidade e, ao mesmo tempo, manter grupos de moradores cuja rotina migrava entre o ser ribeirinho e o ser rural. Essas convivências removem muitas noções estagnadas de hierarquia e nos colocam em outro lugar.

Hoje, estamos vivendo uma super gentrificação neste bairro, mas foi a vida nele que me ajudou a perceber, em meus mais diversos deslocamentos, a importância de não cortar o elo entre a materialização criativa e as bases contextuais que a geraram. Percebi a importância de não levar a materialização para o lugar de isolamento, a ponto de perder totalmente a referência de onde partiu, porque isso não faz sentido para as cosmologias da qual eu faço parte.

Acho que por trazer essas referências e por ter com o prêmio uma relação de absoluta sinceridade, no sentido de frequentemente dar retornos sobre como as dinâmicas dele afetam a produção da fotografia/artes visuais em nosso entorno, que eu fui convidada. Essa conversa existiu pela primeira vez na edição de 2019, mas ano passado foi impossível para mim orientar qualquer pessoa, porque eu estava em um ciclo intenso de viagens. Este ano, nós acordamos de receber a residência em Recife e espero que, apesar de qualquer contexto dessa pandemia, seja uma experiência boa para quem vier.

Terrane. Foto: Ana Lira

P: O que aqueles que desejam se inscrever na Residência Artística Recife podem esperar de atividades e ações propostas.

R: Recife é uma cidade bem intensa em termos de criação, mas pouco institucional nesse sentido. Um residente cuja prática esteja focada em museus, galerias e espaços mais institucionais pode ter poucas opções na cidade. Há opções, mas não é o nosso forte…

Por outro lado, é  um lugar de muita criação livre, vivências, circulação e experiências cotidianas. As trocas com outros artistas e com a própria cidade já oferecem a possibilidade de repensar as experiências de vida. Então, o ideal é que quem aplicar para Recife saiba que o aprendizado vai estar na observação cotidiana e nas potências de intercâmbio com outras cidades da região metropolitana, agreste e sertão.

Nesse sentido, há uma certa conexão com Belém, cuja experiência sensorial transforma qualquer vida e processo artístico. Então, precisa vir aberto para esses entrelaçamentos. Aberto para conviver, sentir cheiros, ouvir sonoridades, ficar preso no trânsito, sair de casa sem hora pra voltar, emendando experiências diferentes em um único dia, mesmo com muita chuva. Ver uma cidade que fecha cedo e acorda muito cedo – e que se pode construir experiências de rever esse lugar. Pensar na praia e no tubarão ao mesmo tempo, encontrar alguém no meio do caminho e se apaixonar; enfim, todos esses deslocamentos possíveis. E sentir o que isso transforma nos processos de criação…

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve até o dia 30 de abril. Informações: (91) 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

Experiências mais compartilhadas: Entrevista com Mariano Klautau Filho

Share This:

-> Inscrições prorrogadas até 30/04. Saiba mais AQUI.

Três prêmios de residência artística e uma mostra coletiva com a curadoria convidada de Rosely Nakagawa. É assim que o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inicia a convocatória para a sua 11ª edição. Depois de completada uma década de atuação, o projeto decidiu propor experiências do pensar e do fazer artístico mais compartilhadas. As inscrições estão na reta final e seguem abertas só até o dia 29 de março, realizadas pelo site http://www.diariocontemporaneo.com.br/inscricoes/.

O tema deste ano vem buscar a provocação para o artista na literatura. “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” é uma referência direta ao título do romance de Rubem Fonseca.

Belém, Pará, Brasil. Cultura. Mariano Klautau Filho (Curador e coordenador Geral do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia). 27/02/2020. Foto: Irene Almeida.
Mariano Klautau Filho, curador e coordenador geral do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Foto: Irene Almeida

Um livro que, nas palavras de Mariano Klautau Filho, curador do projeto, “fala essencialmente das fronteiras da ficção, em que a narrativa é constantemente atravessada pela presença do cinema na vida mental do protagonista e, portanto, tornando-se uma ferramenta de deslocamento poético para a vida real”.

Literatura e cinema atravessam a fotografia e a levam para as possibilidades do contemporâneo em uma fluidez de linguagens e significações.

Confira a entrevista com o curador:

P: O livro de Rubem Fonseca é mencionado por muitos leitores como uma história frenética. Como você vê isso relacionado com a contemporaneidade, a arte e a comunicação imediatista dos dias atuais?

R: O livro e, especialmente o seu título, é uma provocação ao artista. Não é preciso ler o romance ou investigar profundamente seus significados. Se o artista puder fazer isso, ótimo. Se não, ele poderá ficar com o efeito imaginativo e plástico que o título pode evocar, pois ele é bastante intenso.

O romance tem uma narrativa de certa forma veloz, mas não é isso que importa muito e sim, o fato de que o protagonista é um cineasta que está o tempo todo vivendo imaginativamente no limite entre imagem e texto, roteiro cinematográfico e realidade, ou seja, alguém imerso na experiência da ficção.

P: O que seriam estas vastas emoções?

R: Prefiro que o artista reflita sobre e faça do seu trabalho uma experiência emocional intensa. Não sei o que significa exatamente “Vastas Emoções” mas a expressão me sugere intensidade, paixão ou até uma certa grandeza do sentimento humano.

Cada artista pode interpretar do seu jeito, assim como a ideia de um pensamento imperfeito é muito sedutora no sentido de que faz parte da humanidade pensar, refletir, errar, acertar, pensar, debater, refletir infinitamente como um exercício contínuo.

P: O protagonista sonha sem imagens. Hoje o nosso mundo é extremamente visual. Seria essa uma forma de neutralizar o que está ao redor e se concentrar nas imagens que estão dentro de nós apenas esperando para se materializar?

R: Essa é uma boa ideia. Pensar um mundo sem imagens, mas como pensá-lo sendo um artista visual? Por outro lado, o personagem imagina muitas coisas e foge de uma série de eventos em que a realidade se mistura com suas imaginações. Enfim, a provocação é bem aberta, é uma experiência com o caráter visual da palavra e das expressões.

P: Ano passado, o projeto completou uma década de atuação. Foram realizadas diversas experiências e formatos ao longo destes 10 anos. O que traz, então, este novo ciclo?

R: Traz basicamente uma curadoria convidada (Rosely Nakagawa) que irá assumir a construção e a narrativa da grande mostra. Traz também os prêmios dedicados exclusivamente às residências artísticas porque queremos centrar o foco na formação do artista sem precisar exigir dele um resultado, mas propor um processo.

E mais: uma comissão científica para pensar de modo organizado o conceito da programação de palestras, oficinas e encontros com pesquisadores, levantando alguns temas da arte em diálogo com outros campos.

P: O projeto está propondo experiências mais compartilhadas. Fale um pouco sobre as residências neste sentido.

R: Como falei anteriormente, é o sentido processual e de formação que nos interessa quando propomos as residências.

A conversa que os artistas residentes terão com o público ou todo o tipo de trabalho em processo que poderá ser gerado nos coloca em contato com a arte como pesquisa e conhecimento. É isso que queremos estimular no artista, que pense em seu processo, que pense sobre o que quer dizer no seu trabalho, que não só limite sua participação à exibição de trabalhos.

SERVIÇO:  O 11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia inscreve só até o dia 29 de março. Informações: Rua Gaspar Viana, 773 – Reduto. Contatos: (91) 3184-9310, 98367-2468 e diariocontemporaneodfotografia@gmail.com. Edital e inscrições no site:  www.diariocontemporaneo.com.br. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do jornal Diário do Pará com apoio institucional do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus, SECULT e do Museu da UFPA; colaboração da Sol Informática e patrocínio da Alubar.

Flavya Mutran é a artista convidada da nona edição

Share This:

Mestre e doutora em Artes Visuais pelo PPGAVI do Instituto de Artes da UFRGS, com pesquisas sobre arquivos fotográficos e compartilhamentos de imagens via web, Flavya Mutran, atualmente é professora do Departamento de Design e Expressão Gráfica na Escola de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre (RS), onde vive desde 2009.

Ela integrou a comissão de seleção do 9º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia do qual também é artista convidada. Trabalhos conhecidos como EGOSHOT, BIOSHOT e DELETE.use serão apresentados na mostra “Lapso”.

Na entrevista a seguir, Flavya conversa sobre a sua relação com a fotografia e com o nosso mundo mediado por imagens.

Da série DELETE.use. Foto: Flavya Mutran

Seus trabalhos abordam muito a questão da fotografia como elemento construtor de memorias. Seriam as fotografias as histórias da representação? 

De certa forma sim, já que de um jeito ou de outro, fotografias acabam representando alguma coisa ou alguém, certo? Se pensarmos em fotografias como aquilo que opera com a nossa noção de tempo, de espaço, de escala, e de tantas outras formas de presentificações, então elas são mesmo empreendimentos memoráveis. Aliás, essa é uma maneira ótima de olhar para fotografias: ter a devida consciência de que elas não são testemunhas fiéis dos acontecimentos, ainda que teimosamente a gente adore se deixar enganar por elas.

Fotografias e fotografados representam, apresentam, inventam. Tem sido assim desde o princípio da História da Fotografia.

A internet se tornou uma grande enciclopédia virtual e você mergulhou nela em pesquisas que tem como foco desde a figura humana até o “apagamento” desta. O que te levou a investigar esse assunto?

Se para alguns a fotografia enquanto linguagem, miniaturizou e transformou o mundo numa versão portátil, a internet é sua plataforma de embarque e desembarque. Ela tem sido o ponto de partida dos meus últimos trabalhos não apenas pelo viés enciclopédico, mas principalmente porque parte da metodologia de acesso aos canais da rede envolve algum tipo de relação PALAVRA + IMAGEM e isso sim move meu trabalho.

Foi da relação de interdependência entre texto e fotos, que comecei a olhar como as pessoas se comportam e como transformam a si mesmas em lugares, IPs localizáveis de várias partes do mundo.

Mapear endereços virtuais e fotografar essas autorrepresentações, para mim, é quase o mesmo que fazer uma viagem para algum território diferente do meu sem, no entanto, precisar que eu tire os pés de casa.

Assim, o melhor da interdependência palavra-imagem na web é a possibilidade de construir relações de sentido diferentes para uma mesma imagem, alterar os pontos de observação sem mudar o ponto de vista inicial do fotógrafo precursor de determinada cena. Gosto de pensar que criar apagamentos ou sobreposições de elementos visíveis em fotografias do passado são alternativas de futuro para narrativas tidas como encerradas. É como se eu convidasse outros olhares para atuar em novas fábulas em cenários já conhecidos.

A artista convidada desta edição.

Atualmente vivemos em um mundo com o qual nos relacionamos através das imagens, mas, ao mesmo tempo, também nos fazemos presentes produzindo conteúdo visual diariamente. Qual seria então o papel cultural da fotografia para você?

Segundo Paul Ricoeur, nossa relação com o tempo é feita da mistura entre o histórico e o ficcional. Nesse sentido, o imaginário é fundamental pois a ficção de certa forma é também histórica, inerente a todos nós. A fotografia, cada vez mais acessível e democrática, é uma riquíssima linguagem para construção do imaginário, seja factual, histórico ou ficcional, certo? Através dela é possível criar discursos que misturam vivências e vocabulários pessoais com repertórios e dinâmicas coletivas, e é daí seu papel cultural tão relevante. Cada um de nós pode assumir-se como fotógrafo e, portanto, como narrador. A fotografia, então é esse canal (auto) discursivo. Este, aliás, é o mote que o Mariano Klautau Filho criou para o edital dessa edição do Prêmio, “Realidades da Imagem, Histórias da Representação”, testando e talvez atestando em que medida a fotografia está a serviço dos dois extremos do imaginário contemporâneo.

Em muitos dos seus trabalhos há o uso de suportes diferentes como vídeo, gravura, instalação, entre outros. Eu percebo todos eles como desdobramentos a partir da fotografia. É correto afirmar isso? Por que?

Sim, todo suporte que eu adoto como meio deriva de uma matriz fotográfica. Sou uma legítima representante da espécie HOMO PHOTOGRAPICUS, descrita por Michel Frizot como aquele tipo de criatura que aprendeu a ver e se expressar através de lentes. Mas para ser bem honesta, a fotografia como meio apenas não basta. Nunca bastou para mim. Ela sempre foi rápida demais enquanto ferramenta de produção de imagem, daí que nunca me dei por satisfeita de encerrar assuntos depois do disparo da câmera.  Sempre procurei entender o tempo de maturação da imagem após a captura, seja no laboratório químico, escavando negativo, criando camadas sobre o papel ou transferindo imagem para tela ou metal. Tudo procurando uma maneira de permanecer no campo das maquinações da imagem.

Como você enxerga a nossa relação atual com as imagens? Há quem diga que vivemos uma saturação de selfies, mas não seriam elas tentativas de autoconhecimento? 

A principal atração que fisga nossa atenção na web é a imagem. Fotografias e vídeos são as iscas perfeitas para aumentar o tempo de navegação. É a partir de imagens que nos colocamos diariamente à mercê de um sistema codificado que regula todo e qualquer tipo de trânsito de informação em rede, mesmo que a maioria de nós sequer saiba quais são as implicações reais desse vínculo. Não é à toa que o termo mais adequado para definir nosso papel na web seja o de USUÁRIO, tão próximo ao consumo de drogas, justamente porque imagem alicia, vicia, pode causar dependência.

Não dá para saber em que medida o excesso de imagens ao qual somos constantemente bombardeados atrapalha ou contribui para o nosso autoconhecimento. Fato é que desde a popularização dos dispositivos móveis de acesso à internet as fronteiras entre o espaço público e o privado sofreram grandes rupturas. A partir da época da chamada WEB 2.0, lá pelo início dos anos 2000, o ego humano parece ter se agigantado dando o tom das relações objetivas e subjetivas que tratam do local e do global na cena contemporânea. Cada dia fica mais claro que, por trás das páginas pessoais, há muitos interesses corporativos das grandes empresas que financiam as redes gratuitas da internet escusos nos algoritmos que lhes constituem.

Se hoje o meio virtual é o guardião de nossas histórias mais secretas e da nossa imagem mais pública, que preço pagaremos pela guarda consignada da nossa memória? Quem nos assegura que no futuro teremos acesso fácil aos nossos arquivos pessoais de textos e imagens que estão online? Será que mantê-los e acessá-los ainda será gratuito? Na falta de máquinas que decodifiquem esses algoritmos, quem garante que seremos capazes de lembrar do nosso tempo e das muitas versões digitais das nossas fotos, textos, sons, entre outros?

Da série EGOSHOT. Foto: Flavya Mutran

O que você anda pesquisando atualmente?

Só duas coisas atualmente atraem minha atenção e curiosidade: as fotos da Curiosity Rover da NASA e uma vontade enorme de um dia cruzar com o carro do Google Street View!

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é um projeto nacional realizado pelo jornal Diário do Pará com apoio da Vale, colaboração da SOL Informática e apoio institucional do Museu do Estado do Pará – MEP, do Sistema Integrado de Museus/Secult-PA e do Museu da UFPA.

A Experiência da Residência: entrevista com Guido Couceiro Elias

Share This:

Estudante do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará, Guido Couceiro Elias ganhou o “Prêmio Residência Artística em São Paulo” nesta 8ª edição do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Durante mais de um mês ficou imerso na maior capital do país sob a orientação de Lívia Aquino e apoio do Condomínio Cultural.

Fotos: Guido Couceiro Elias

No Espaço Cultural Casa das Onze Janelas ele exibe “Vivaz”, sua série fotográfica premiada, que percorre retratos atuais e antigos da sua família, focando na memória, em seus integrantes mais idosos e nas relações destes que convivem juntos há mais de um século. Além disso, na sala do Laboratório das Artes podem ser vistas as suas produções mais recentes.

Diário Contemporâneo: A série premiada é bem intimista, realizada toda dentro de casa e o que você apresentou no Laboratório das Artes mostra uma vivência exterior pela cidade. Como você observa isso?

Guido: Acredito que isso se deu como uma necessidade minha em São Paulo, não tinha o aconchego do meu lar e tive que sair pra rua, voltar meu olhar para o externo, além do que lá eu era estrangeiro, tudo me fascinava. Agora, continuando esse exercício em Belém, vejo que foi muito importante me voltar para cidade. Consigo observar várias situações aqui que antes da residência eu não conseguiria.

Diário Contemporâneo: Você teve dificuldades? Quais foram?

Guido: Tive algumas sim. São Paulo é algo muito maior do que eu imaginava, eu não estava acostumado com algo tão grande, nunca tinha ido para lá. Algumas vezes me senti um nada naquela imensidão, tive crise de ansiedade e medo logo de princípio, mas aos pouco consegui lidar com aquilo tudo e aproveitar a cidade e o que ela proporcionava. No fim, fiquei apaixonado por São Paulo.

Diário Contemporâneo: Como se deu o relacionamento com a Lívia Aquino? De que forma se deu a sua vivência em São Paulo tendo ela como tutora?

Guido: A Lívia é uma pessoa incrível, foi muito proveitosa minha relação com ela em São Paulo. Ela é uma das pessoas em que me inspiro hoje em dia, uma pessoa extremamente inteligente, que me recebeu de braços abertos. Muito compreensiva, mas também muito provocativa. Com certeza essa vivência com ela me fez crescer e querer crescer cada vez mais.

Diário Contemporâneo: O que mudou em você depois da residência? E no seu olhar?

Guido: Eu mudei muito, parece que descobri uma outra parte minha. Minhas conversas com a Lívia, com Mariano, com a Irene e minha experiência em São Paulo me transformaram. Quero agora cada vez mais produzir, não só fotografia, mas escrever mais, estudar mais, experimentar outras linguagens, misturar linguagens como venho fazendo desde São Paulo, com textos e fotografias. A residência me abriu um leque de possibilidades que eu não considerava ou não enxergava.

Diário Contemporâneo: Como que você acha que essa experiência vai se manifestar nos seus próximos projetos?

Guido: Descobri uma diversidade libertadora, estou experimentando algumas coisas.

VISITAÇÃO

A exposição “Poéticas e Lugares do Retrato” exibe os trabalhos premiados, selecionados e participações especiais. As obras ficam divididas entre o Museu da UFPA e o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. Além disso, o MUFPA recebe a mostra individual “Interiores”, com trabalhos de Geraldo Ramos, artista convidado. A visitação segue até dia 30 de junho, no MUFPA e 02 de julho, nas Onze Janelas.

O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é uma realização do Jornal Diário do Pará, com patrocínio da Vale, apoio institucional do Museu da Universidade Federal do Pará, Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, do Sistema Integrado de Museus/SECULT-PA e apoio da Sol Informática. Informações: Rua Gaspar Vianna, 773 – Reduto. Contatos: (91) 3184-9310; 98367-2468; diariocontemporaneodfotografia@gmail.com e www.diariocontemporaneo.com.br.

Três perguntas para: Daniela de Moraes

Share This:

Por: Debb Cabral

Selecionado na 6ª edição do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, o trabalho Arquitetura do Esquecimento, de Daniela de Moraes é composto de pequenos fragmentos que nos fazem imaginar a trajetória de um objeto. Trata-se de um velho álbum de fotografias aparentemente vazio, sem fotografias, uma imagem que se faz sem imagens. O trabalho fala da falibilidade humana. É a imagem do obsoleto, da não memória, uma tentativa de detectar como se constrói o esquecimento.

Foto: Arquitetura do Esquecimento, de Daniela de Moraes

Confira a entrevista com a artista:

Como é falar da ausência através de imagens que são como pequenos vestígios?

As fotografias remetem à imagens que não estão presentes, um álbum de fotografia sem fotografias. Encontrei esse álbum “vazio” na casa da minha avó, ela tem Alzheimer e foi muito forte a vontade de falar sobre essa questão do esquecimento (a ideia não é falar da doença, mas sim de memória, esquecimento, ausência…) Quando você vê uma imagem, ela acessa algo na sua memória. Os vestígios do tempo estão nas marcas que estão impressas em cada página, mofo, bolor, pequenos rasgos no papel envelhecido.

Às vezes, é muito mais importante refletir sobre o que a fotografia não mostra. Como que isso se dá no seu trabalho?

Eu já tinha um trabalho anterior em cima do acervo de fotos das minhas avós, era um viés mais antropológico dentro da minha família. Nesse processo, eu encontrei esse álbum aparentemente vazio e a minha primeira vontade foi de preenchê-lo, mas depois eu refleti muito sobre esse objeto até que veio à tona a leitura que fiz e a ideia de expor dessa maneira.

Como que é essa tentativa de detectar como se constrói o esquecimento?

O título do trabalho é “Arquitetura do Esquecimento”, arquitetura no sentido de projetar, construir, uma provocação ao espectador, para estimular a sua imaginação (que imagens são essas? que imagens preenchem essas molduras?). É um trabalho que faz com que as pessoas questionem-se sobre as imagens que guardamos na nossa memória (tem também uma brincadeira é com a palavra ‘Arquitetura’, pois as fotos parecem imagens de janelas…).

——

Criado em 2010, o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia é um projeto nacional que incentiva a cultura, a arte e a linguagem fotográfica em toda a sua diversidade.

As mostras “Tempo Movimento”, com trabalhos dos artistas premiados, selecionados e participações especiais, no Espaço Cultural Casa das 11 Janelas; e “Diante das cidades, sob o signo do tempo”, de Jorane Castro, artista convidada desta edição, no MUFPA;  seguem com visitação aberta até o dia 28 de junho de 2015. A entrada é franca.

Entrevista: Tadeu Chiarelli

Share This:

> O crítico de arte, historiador e atual diretor do MAC-USP, Tadeu Chiarelli

“Ao sair de algumas exposições em museus, galerias e bienais, muitas pessoas experimentam certo amargor relacionado à sensação de que não são cultas. A razão desse sentimento reside no fato de que muito daquilo que observaram não possui conexão com aquilo que, durante anos, foram ensinadas a entender como arte”. Tadeu Chiarelli defende: talvez seja esta a grande razão para que muitos deixem de frequentar exposições de arte contemporânea. Apartada do grande público, portanto, a produção atual tende ao ininteligível, à falta de sentido, ao silêncio.

Crítico de arte, historiador e atual diretor do MAC-USP – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Chiarelli é considerado um dos mais atuantes curadores de arte brasileira contemporânea. Convidado do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, ele participa do bate-papo “A Fotografia e o Museu Contemporâneo: curadoria e pesquisa”, em que discutirá temas como a inserção cada vez mais forte da fotografia na arte contemporânea e o papel cultural que exerce o museu de arte hoje.

“Um museu de arte contemporânea pode ter um papel mais ativo do que aquele de simples armazém de obras e/ou de balcão para exposições que chegam de qualquer lugar”, apregoa. No encontro, conduzido pela curadora e professora Marisa Mokarzel, Chiarelli também apresentará obras que integram o acervo do MAC-SP e discutirá como este acervo está sendo repensado no novo projeto de mudança espacial do MAC – um dos maiores e mais ousados projetos de museu contemporâneo na América Latina. Confira a seguir o bate-papo.

1. Que papel cultural exerce o museu de arte na sociedade de hoje?

Penso que um museu de arte contemporânea pode ter uma papel mais ativo do que aquele de simples armazém de obras e/ou de balcão para exposições que chegam de qualquer lugar, sem conexão profunda com o acervo já existente e com a política própria do museu. Penso que o museu tem que ser um espaço não apenas de recepção e discussão da arte, mas também, no limite, pode ser também um espaço de produção artística.

2. Você defende que somente com base em um modelo museológico e museográfico atento será possível diminuir o abismo que há entre público e arte contemporânea. Como isso se dá, na prática?

Penso que o museu – e estou pensando em um museu de arte contemporânea – deve explicitar ao máximo sua estrutura, pois, assim, deixará claro os parâmetros que regem a produção contemporânea. Tornando essas estruturas mais cristalinas é possível tornar o museu e a arte que ele expõe em questões de interesse para a sociedade.

3. Não acha que a figura do curador também exerce um papel fundamental nessa conquista?

A figura do curador dentro do museu é fundamental para a sua política. Todo museu deve ter sua equipe de curadores, responsáveis por segmentos específicos da coleção. Repare que não me refiro a curadores independentes, mas a curadores de acervo. Será a equipe de curadores quem estabelecerá a política global da instituição e seus contatos com a sociedade.

4. A mudança no MAC-USP traz vários aspectos simbólicos. O que significa pra você essa fase? Olhando para o futuro, o que vê como seus desafios à frente do novo MAC?

O período que vivemos é muito importante para o MAC-USP: no final do ano passado foi votada a autonomia dos museus da USP e isso obrigará a todos os museus da Universidade a empreenderem mudanças significativas em seus respectivos regimentos. Tal necessidade de mudança estrutural coincide com o período de preparação de mudança física do MAC-USP que deverá em breve ocupar um espaço no Parque Ibirapuera. E o mais interessante é que todas essas mudanças vão ocorrer no início das comemorações dos 50 anos do MAC – que será em 2013. Dá para imaginar o que tudo isto significa e significará para a instituição.

5. Você é professor-doutor da USP há 27 anos, ajudou e ajuda a formar artistas. Que importância dá para a formação nessa área? Por que recomendaria a um aspirante a artista um curso formal?

Eu acredito que a universidade hoje em dia é um dos raros espaços em nossa sociedade em que o debate crítico continua fermentando. É neste sentido que recomendo aos aspirantes a artistas que frequentem a universidade porque ali, mais do que aprender técnicas e procedimentos (que poderiam ser aprendidos em outros estabelecimentos) ele complementará sua formação no diálogo franco e crítico com professores e colegas. Porque o artista hoje em dia – e já faz tempo! – deixou de ser um mero artesão. Ele é um intelectual fundamental para a sociedade e, portanto, sua formação deve conter não apenas as especialidades técnicas (se ele julgar necessário) mas, sobretudo, o estudo, o debate e a crítica.

6. Qual a sua opinião sobre a crítica fotográfica feita hoje no Brasil?

Penso que a crítica, de uma maneira geral, está em baixa. Nós, no Brasil estamos percebendo que, nos jornais, a crítica cedeu lugar para o release ou o “achismo” de repórteres nem sempre bem formados. A crítica migrou para a universidade e lá permanece em grande parte alijada de um contato mais produtivo com a sociedade. No campo específico da fotografia é interessante notar como grande parte do que se escreve parte de preconceitos e de opiniões meramente pessoais sem nenhuma densidade maior.

8. E qual o lugar da fotografia na arte contemporânea brasileira?

Eu não vejo um “lugar” para a fotografia na arte contemporânea. Creio que a arte contemporânea é fotográfica.

7. Você também integra a comissão de seleção do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Qual a importância de projetos dessa natureza – que não se encerram enquanto prêmio e envolvem atividades de formação – na cadeia (produtiva, acadêmica, profissional) da fotografia brasileira?

Penso que toda iniciativa que busca pensar na formação profissional de jovens de talento deve ser valorizada. O Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, a meu ver, redimensiona os aspectos meramente burocráticos que atividades como essas costumam ter, para buscar, de fato, intervir nos rumos profissionais da juventude ou daqueles que estão começando na carreira. Considero isso um valor positivo e que merece ser apoiado.

(Texto: Assessoria de  Comunicação)